O Ibovespa caiu 3,71% na semana, o dólar voltou a R$ 5 e o Banco do Brasil virou a maior decepção do trimestre.
A Bolsa Estava Tentando Respirar. Aí Virou Política.
No começo da semana de 12 a 16 de maio, havia uma janela de esperança. Os balanços corporativos vinham surpreendendo positivamente, o dólar tinha fechado a semana anterior em R$ 4,91 — o menor patamar em dois anos — e o mercado alimentava uma expectativa discreta de que a bolsa poderia ao menos estancar o sangramento.
Não foi o que aconteceu.
O Ibovespa fechou a sexta-feira (15) em queda de 0,61%, aos 177.283 pontos, e acumulou uma perda de 3,71% na semana — a quinta semana consecutiva no vermelho. Para quem está acompanhando desde o recorde histórico de 199.354 pontos, em 14 de abril, o índice já perdeu mais de 22 mil pontos em pouco mais de um mês. Isso equivale a uma desvalorização de quase 11% em relação ao topo. Portanto, no acumulado de 2026, o Ibovespa ainda sobe, mas a vantagem foi sendo corroída dia a dia. Em paralelo, o dólar voltou a cruzar a linha dos R$ 5 — e dessa vez, o culpado não foi só a guerra no Oriente Médio.
Segunda-Feira: o IPCA Chegou, e Não Trouxe Boas Notícias
A semana abriu com a divulgação do IPCA de abril, o índice oficial de inflação do Brasil medido pelo IBGE. O resultado foi de 0,67% no mês — uma desaceleração na comparação com março, o que poderia parecer boa notícia à primeira vista.
Só que não era bem assim. O acumulado em 12 meses chegou a 4,39%, já pressionando a faixa superior da meta de inflação do Banco Central. O que mais preocupou os analistas, porém, não foi o número em si, mas a composição. Os núcleos de inflação — aqueles que excluem itens mais voláteis como alimentos e energia — continuaram pressionados, sinalizando que a inflação no Brasil não é só reflexo do petróleo caro por causa da guerra. Há pressões internas, disseminadas, que independem do Estreito de Ormuz.
Portanto, o caminho para a queda dos juros ficou um pouco mais estreito. O dólar respondeu com alta moderada, fechando em torno de R$ 4,89. O Ibovespa também recuou, com investidores calibrando as expectativas para a política monetária do segundo semestre. Nenhum desastre, mas nenhuma alegria.
Quarta-Feira: o Banco do Brasil Jogou a Bomba
Se a segunda foi marcada pelo IPCA, a quarta-feira (13) entrou para a história da semana como o dia do Banco do Brasil — e não pelo melhor dos motivos.
O maior banco público do país divulgou seu resultado do primeiro trimestre de 2026: lucro líquido ajustado de R$ 3,4 bilhões. Parece um número grande até você descobrir que, no mesmo período do ano passado, o lucro havia sido de R$ 7,3 bilhões. Ou seja: uma queda de 53,5% em apenas um ano. Para quem está acostumado a ver o Banco do Brasil como uma das referências de dividendos da bolsa — aquela ação que paga de forma previsível e raramente decepciona — o número foi como um balde de água fria bem gelada.
O problema central está no agronegócio. O Banco do Brasil tem exposição gigantesca ao crédito rural, e o setor atravessa uma crise severa. Fazendeiros endividados, safras abaixo do esperado e um calendário de renegociações que ainda assombra os balanços. A inadimplência na carteira de agro acima de 90 dias chegou a 6,22% no trimestre — mais que o dobro do nível de um ano antes, quando estava em 2,76%. Em termos práticos, isso significa que a cada R$ 100 emprestados ao campo, mais de R$ 6 estão vencidos há pelo menos três meses.
Nesse sentido, o mercado poderia ter digerido o resultado fraco se o banco tivesse sinalizado que o pior já passou. Não sinalizou. Ao contrário: o Banco do Brasil revisou para baixo a própria projeção de lucro para 2026. A estimativa anterior era de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões. A nova projeção caiu para R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões. Em tradução direta: o antigo piso virou o novo teto. E o retorno sobre patrimônio (ROE) — que mede o quanto o banco ganha em relação ao capital que possui — despencou para 7,3%, o menor patamar entre os grandes bancos do país. O Itaú, para comparar, entregou 26,4% no mesmo período.
O “Flávio Day” Que o Mercado Não Precisava
Se a semana já estava pesada por conta do IPCA e do Banco do Brasil, a quarta-feira guardava mais uma surpresa — desta vez, de natureza política. Ainda durante o pregão, o site Intercept Brasil publicou uma reportagem revelando que Daniel Vorcaro — dono do Banco Master, que está no centro de um escândalo financeiro envolvendo o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) — teria financiado cerca de R$ 61 milhões do filme “Dark Horse”, a produção biográfica sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, a pedido do senador Flávio Bolsonaro.
O impacto foi imediato. O dólar, que já operava em alta no dia, disparou e fechou acima de R$ 5 pela primeira vez desde o final de abril — uma alta de 2,27% em um único pregão. A bolsa, por sua vez, registrou queda de 1,8%, aos 177 mil pontos, com Petrobras caindo mais de 2% sozinha.
Por que uma notícia política move o mercado assim? A resposta é mais simples do que parece. Parte dos investidores estrangeiros e nacionais vinha precificando uma possível mudança na política econômica brasileira em 2027, caso Flávio Bolsonaro avançasse nas pesquisas. Nesse cenário, o mercado apostava em um ambiente de mais austeridade fiscal. Quando a ligação entre Flávio e Vorcaro veio à tona, parte dessa leitura positiva evaporou. Sobretudo porque gerou incerteza em um momento em que o mercado já estava fragilizado por cinco semanas seguidas de perdas.
O episódio ficou conhecido nos pregões como o segundo “Flávio Day” do ano — referência a uma sessão semelhante ocorrida em dezembro do ano passado, quando a primeira reportagem ligando a família Bolsonaro ao caso Master derrubou os ativos brasileiros. Em contrapartida, Flávio Bolsonaro negou irregularidades e pediu a instalação de uma CPI para apurar o caso Master.
Quinta-Feira: Uma Trégua Breve — e uma Pesquisa Eleitoral
A quinta-feira (14) trouxe um pequeno respiro. O Ibovespa conseguiu fechar em alta, sustentado por uma melhora discreta no exterior e pela publicação do relatório Prisma do Ministério da Fazenda, que mostrou uma revisão positiva nas projeções de déficit público. Economistas consultados pelo governo melhoraram a estimativa para o rombo de 2026 e 2027 — portanto, houve ao menos um dado fiscal mais animador no meio da semana.
Nesse mesmo dia, a pesquisa Datafolha foi realizada, com os resultados divulgados na sexta. O levantamento foi feito entre terça e quinta, justamente durante o turbulento “Flávio Day”. O primeiro turno mostrava Lula numericamente à frente de Flávio Bolsonaro. Para o mercado, o resultado gerou leituras ambíguas: de um lado, reduz a certeza de uma virada política em 2027; do outro, a eleição ainda está distante o suficiente para que tudo possa mudar. Afinal, em ano eleitoral, pesquisa no Brasil tem prazo de validade curto.
Sexta-Feira: Aversão ao Risco Generalizada
A semana terminou como começou — sem fôlego. O Ibovespa fechou em queda de 0,61%, aos 177.283 pontos, pressionado por uma combinação de fatores externos e internos. No exterior, as bolsas americanas tombaram porque os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos (os chamados Treasuries) subiram, o que reduz o apetite global por ativos de risco. Quando os juros americanos sobem, os investidores tendem a preferir a segurança dos títulos americanos em vez de arriscar em mercados emergentes como o Brasil.
Internamente, o dólar fechou a R$ 5,07 — alta de 1,59% no dia — e acumulou alta de 3,48% na semana. No ano, a moeda americana ainda recua 7,70% frente ao real, mas o movimento da semana foi um sinal de alerta. O real pode estar chegando perto do limite de sua valorização. Com a guerra no Oriente Médio sem previsão de fim e a incerteza eleitoral doméstica crescendo, o investidor estrangeiro começa a exigir um prêmio maior para manter posição no Brasil. Em outras palavras: ele quer ser mais bem pago pelo risco de ficar aqui.
O Ibovespa encerrou assim a quinta semana consecutiva de perdas, com queda de 5,36% no acumulado de maio. No ano, ainda sobe 10,03% — mas a distância do recorde histórico nunca pareceu tão grande quanto agora.
O Brasil desta semana mostrou sua face mais complicada: fundamentos misturados, política entrando na conta e exterior pressionando dos dois lados. O Ibovespa acumula 10% de alta no ano, mas perdeu 11% desde o topo histórico. O dólar, que era a moeda mais valorizada contra o real no acumulado de 2026, voltou a R$ 5 em cinco dias de turbulência. E o Banco do Brasil, que foi por décadas o dividendo certo de quem investia na bolsa, entregou seu pior resultado em muitos anos. Nada disso significa que o mercado brasileiro está quebrado — significa que ele está sendo honesto. Quem entender essa equação tem vantagem. Quem só olha para o gráfico do dia, não.
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