The Rocket: R$ 100 mi, 19 recordes e o pai assassino

Foto: Ronnie O’Sullivan Fan Site (ronnieo147.com)

O inglês Ronnie O’Sullivan tem 19 recordes mundiais, mais de R$ 100 milhões de patrimônio — e uma história de vida que nenhum roteirista de Hollywood teria coragem de inventar.

9 de maio de 2026

O Jogo Que Poucos Conhecem — e Que Esse Homem Domina Como Ninguém

Antes de falar do homem, vale entender o jogo. Sinuca — ou snooker, como o mundo chama — não é o bilhar de bar. É uma mesa enorme, de quase quatro metros de comprimento, coberta por um feltro verde, com 22 bolas coloridas e regras que exigem precisão cirúrgica, raciocínio estratégico e controle emocional de ferro. O objetivo parece simples: encaçapar as bolas em sequência, acumular pontos. Na prática, não.

A pontuação máxima possível em uma única jogada contínua — chamada de “break” — é 147 pontos. Para isso, o jogador precisa encaçapar 15 bolas vermelhas intercaladas com a bola preta, e terminar limpando todas as bolas coloridas da mesa. São 36 tacadas perfeitas, sem errar uma. Portanto, quem consegue fazer isso está jogando, tecnicamente, o jogo perfeito. Um 147 é tão raro que, em décadas de torneios profissionais, apenas um punhado de jogadores conseguiu. Ronnie O’Sullivan fez 17 vezes. O segundo lugar da história tem menos da metade.

Títulos Mundiais
7 (recorde)
Breaks perfeitos (147)
17 (recorde)
Recordes Guinness
19 oficiais
Patrimônio estimado
~R$ 105 milhões

O Menino de Essex Que Começou a Jogar Antes de Aprender a Multiplicar

Ronnie O’Sullivan nasceu em 5 de dezembro de 1975 em Wordsley, West Midlands, mas cresceu em Chigwell, Essex — zona nobre nos arredores de Londres. O pai, Ronnie Snr., tinha dinheiro: administrava uma rede de sex shops no bairro de Soho e vivia bem, muito bem. A família era de origem italiana pelo lado materno — a mãe, Maria, vinha da Sicília — e o menino Ronnie cresceu entre o luxo discreto do subúrbio inglês e a mesa de sinuca do clube local.

Aos 7 anos, ele começou a jogar. Aos 9, ganhou seu primeiro torneio de clube. Aos 10, fez seu primeiro century break — cem pontos consecutivos sem errar — uma façanha que adultos levam anos tentando. Aos 13, foi campeão britânico sub-16. Aos 15, fez seu primeiro break perfeito de 147, no Campeonato Inglês de Amadores. Ou seja: antes de poder votar, beber legalmente ou dirigir, Ronnie O’Sullivan já era tecnicamente o melhor jogador amador de snooker da Inglaterra.

Afinal, talento desse nível não aparece por esforço sozinho. Mas o que veio a seguir não foi só glória.

Quando o Mundo Desabou: Pai Preso por Assassinato, Mãe na Cadeia

Em 1992, Ronnie tinha 16 anos e acabara de se tornar profissional. Era o momento mais promissor de sua vida jovem — e foi exatamente quando tudo desmoronou. Naquele ano, seu pai foi preso e condenado por assassinato. Ronnie Snr. havia esfaqueado e matado Bruce Bryan dentro de uma boate na King’s Road, em Chelsea, durante uma briga após uma noite de bebedeira. A sentença foi de prisão perpétua, com mínimo de 18 anos.

O menino de 16 anos que carregava o snooker mais promissor da geração passou a visitar o pai atrás das grades uma vez por mês. Antes de ser levado, Ronnie Snr. mandou um recado de cinco palavras ao filho: “Diz pro meu menino vencer.” Típico. Não havia pedido de desculpas, não havia lágrimas públicas — só aquela ordem seca que resume tudo sobre os O’Sullivan.

Quatro anos depois, em 1996, a mãe Maria foi condenada a um ano de prisão por sonegação fiscal. Ronnie, então com 20 anos, ficou responsável pela irmã caçula Danielle, de 8 anos. Sobretudo nesse período — pai preso por homicídio, mãe cumprindo pena, irmãzinha para criar — ele confessaria mais tarde que começou a beber, usar drogas e, nas palavras dele mesmo, “sair dos trilhos”. “Senti que perdi pelo menos sete anos da minha carreira para o álcool e as drogas”, diria O’Sullivan anos depois em entrevista. Mesmo assim, nesse mesmo período caótico, ele estava fazendo história dentro dos torneios. Esse é o paradoxo Ronnie: o caos pessoal e a genialidade técnica sempre coexistiram.

1997: O Dia em Que Ele Parou o Tempo

Se existe um momento que define o que Ronnie O’Sullivan é capaz de fazer, é 21 de abril de 1997. No Campeonato Mundial de Snooker, realizado no icônico Crucible Theatre em Sheffield, ele se sentou à mesa contra Mick Price na primeira rodada e fez algo que nunca havia sido visto antes — e que, 29 anos depois, ainda não foi superado.

Em 5 minutos e 8 segundos, ele completou um break perfeito de 147 pontos. Trinta e seis tacadas. Zero erros. Velocidade de um jogador de xadrez com mãos de cirurgião. A plateia ficou em silêncio nos primeiros segundos — aquele silêncio de quem está vendo algo que não entende direito ainda — e depois explodiu. O comentarista da BBC simplesmente parou de falar. Não havia o que dizer.

O Guinness World Records oficializou: é o break máximo mais rápido da história do snooker profissional. Detalhe curioso: O’Sullivan é ambidestro — consegue jogar com os dois braços com igual precisão, algo praticamente inexistente no esporte. É como se um tenista devolvesse qualquer saque com a mesma velocidade, não importa o lado. Portanto, quando ele diz que estava “jogando fácil” naquela tarde, o mundo acredita.

O prêmio oficial para quem faz um break de 147 naquele torneio era de £147.000. O’Sullivan reclamou que era pouco — e recusou o cheque na hora. Literalmente devolveu o dinheiro como protesto contra o que considerava desvalorização do esporte. Alguns chamaram de arrogância. Outros, de princípio. Ele chamou de ambos.

O Homem dos Recordes: Números Que São Difíceis de Acreditar

Aos 50 anos, com mais de três décadas de carreira profissional, Ronnie O’Sullivan acumula um currículo que envergonharia qualquer lista de lendas do esporte mundial. São 7 títulos mundiais — recorde empatado com Stephen Hendry. São 8 títulos do UK Championship e 8 títulos do Masters — ambos também recordes absolutos. São 41 títulos em torneios de ranking, mais do que qualquer outro jogador na história.

Mas os números que realmente impressionam são os de consistência: 1.330 centuries ao longo da carreira — o segundo colocado na história ainda está tentando chegar à metade. E 17 breaks perfeitos de 147, mais do que o dobro do segundo jogador com mais máximos. Em agosto de 2025, ele foi ainda mais longe: tornou-se o primeiro jogador da história a fazer dois breaks de 147 na mesma partida, contra Chris Wakelin no Saudi Arabia Snooker Masters. Nesse mesmo ano, com 49 anos, tornou-se também o jogador mais velho a registrar um máximo oficial.

Em março de 2026, O’Sullivan quebrou o que muitos achavam ser inquebrantável: fez um break de 153 pontos — o maior da história do snooker profissional — no World Open na China, contra Ryan Day, explorando uma bola livre para encaçapar 16 vermelhas em vez das 15 convencionais. O Guinness World Records presenteou O’Sullivan com cinco novos certificados em maio de 2026, elevando seu total para 19 recordes mundiais oficiais. Há jogadores que passam a vida inteira tentando ganhar um único mundial. Ronnie coleciona recordes de Guinness como outros colecionam troféus de participação.

Foto: Ronnie O’Sullivan Fan Site (ronnieo147.com)
Foto: Ronnie O’Sullivan Fan Site (ronnieo147.com)

Drogas, Depressão e os “Dois Ronnies” Que o Mundo Aprendeu a Conhecer

Dentro da mesa, ele é cirúrgico. Fora dela, sempre foi uma questão em aberto. O’Sullivan admitiu publicamente anos de abuso de álcool e drogas no início da carreira — culminando em 1998, quando foi flagrado no exame antidoping após vencer o Irish Masters. O título foi cassado. O dinheiro foi devolvido. A reputação, arranhadíssima.

Houve também a agressão física a um assessor de imprensa durante o Mundial de 1996 — resultando em suspensão condicional de dois anos e multa de £20.000. Internações no Priory Hospital, clínica de reabilitação preferida dos famosos britânicos. Crises de depressão declaradas, episódios em que simplesmente parou de competir por meses. Em 2012, abandonou o circuito profissional e passou semanas trabalhando em uma fazenda de porcos. Não é metáfora — foi literal.

Os adversários e comentaristas criaram a expressão “os dois Ronnies”: o Ronnie que entra na mesa, faz um 147 em cinco minutos e parece um extraterrestre disfarçado de humano — e o Ronnie que dá entrevistas, briga com dirigentes, ameaça se aposentar toda temporada e parece carregar o peso do mundo nos ombros. Nesse sentido, desde 2011, o psiquiatra esportivo Steve Peters — o mesmo que trabalhou com ciclistas olímpicos britânicos — ajuda Ronnie a manter os dois lados em equilíbrio. Com resultados visíveis: os títulos mundiais de 2022 e 2023 vieram nessa fase mais estável.

A Fortuna de Quem Transformou Tacadas em Patrimônio

Tudo isso construiu uma fortuna estimada entre £14 e £15 milhões — algo na casa de R$ 100 a 110 milhões na cotação atual. É o maior patrimônio da história do snooker. Mais de £15 milhões vieram só de premiações ao longo de três décadas, tornando O’Sullivan o jogador mais bem pago que o esporte já produziu.

Em boas temporadas, ele faturava entre £600 mil e £1,5 milhão apenas em torneios. Na temporada 2023/2024, foram £1,26 milhão em prêmios — um de seus anos mais lucrativos. Em contrapartida, mesmo em temporadas irregulares, seu patrimônio continua crescendo porque hoje a maior parte da renda vem de fora das mesas: contratos de publicidade, trabalho como comentarista na Eurosport desde 2014, documentários — o Amazon Prime fez um sobre ele em 2022 — livros, incluindo três romances policiais e duas autobiografias, e exibições em países como China, onde é tratado como celebridade pop.

Há também os imóveis. Em 2018, comprou uma mansão de cinco quartos em Londres por £1,35 milhão. Em 2025, colocou à venda por £2 milhões. Não é Warren Buffett, mas para quem começou batendo bolinhas em um clube local de Essex, é um resultado que diz tudo sobre o que três décadas de excelência podem construir.

O legado de um homem impossível

Ronnie O’Sullivan não é fácil de explicar em uma linha. Ele é o melhor jogador da história do snooker — isso, o Guinness World Records confirmou com 19 certificados. É também alguém que perdeu sete anos para vícios, cresceu com o pai preso por homicídio e ameaçou se aposentar mais vezes do que a maioria das pessoas troca de emprego. A grandeza dele não veio apesar de tudo isso — veio junto. E talvez seja exatamente por isso que, aos 50 anos, ele ainda está na mesa, fazendo breaks que nenhum ser humano havia feito antes.

💬 Você conhecia a história de vida de Ronnie O’Sullivan fora das mesas? Deixa nos comentários — a trajetória dele merecia um filme ou uma série?

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