O Banqueiro que Foi Para a Cadeia e Voltou Mais Rico do que Nunca

BTGPactual / Centro de Operações e CEO – São Paulo – data: 08/08/2014 – André Esteves, CEO do Banco BTGPactual..Foto: Luiz Prado/ LUZ

O analista de informática que entrou pela porta dos fundos do Pactual saiu pela frente como dono — e depois repetiu o truque numa escala que o Brasil nunca havia visto antes.

Maio de 2026

Fortuna estimada
R$ 104 bilhões
Ranking Forbes Brasil
2º mais rico
Dias preso em Bangu
23 dias
Condenado?
Não. Absolvido.

O banco que Paulo Guedes ajudou a fundar — e que um garoto de 21 anos foi engolindo aos poucos

Em 1989, o Banco Pactual colocou um anúncio procurando jovens em início de carreira. André Esteves, então com 21 anos, cursando matemática na UFRJ e morando com a mãe professora na Tijuca, Zona Norte do Rio, viu o anúncio e se inscreveu. Entrou como analista de sistemas — o cara que conserta computador, basicamente. Afinal, o banco queria cérebros, não currículos. Portanto, ninguém prestou muita atenção naquele garoto que chegava cedo e ficava até tarde.

Quatro anos depois, aos 25, André Esteves era sócio do Pactual. Não era o sócio mais discreto, nem o mais popular — era o mais ambicioso. Nesse sentido, a diferença entre Esteves e os outros jovens talentos que chegavam ao banco era simples: ele usava seus bônus de desempenho para comprar participação na própria empresa. Enquanto os colegas compravam apartamento, ele comprava o banco.

Em 1997, já era diretor executivo. Em 1998, quando seu mentor e fundador Luiz Cezar Fernandes afundou em dívidas de negócios industriais mal-sucedidos, Esteves liderou o grupo que adquiriu a participação dele. O garoto da Tijuca, em menos de dez anos, havia tomado o controle do banco onde entrou para consertar computador. Sobretudo, havia feito isso sem um único escândalo, sem herança e sem padrinho político declarado. Apenas com matemática, ambição e paciência cirúrgica.

Vendeu por US$ 2,6 bilhões. Recomprou por US$ 2,5 bilhões. E ainda saiu no lucro.

Em 2006, o grupo suíço UBS ofereceu US$ 2,6 bilhões pelo Pactual. André Esteves aceitou — e com isso se tornou, aos 37 anos, o bilionário mais jovem a construir a própria fortuna no Brasil até então. Foi para Londres comandar a área global de renda fixa do UBS Investment Bank. Era o maior banco suíço do mundo. Era um cargo extraordinário. E era, para Esteves, evidentemente insuficiente.

Em 2008, enquanto o mundo assistia à crise financeira global derreter ativos em todos os continentes, ele deixou o UBS, reuniu sócios e fundou o BTG — Banking and Trading Group. Internamente, a brincadeira corria nos corredores: BTG significava “Better than Goldman”, referência direta ao Goldman Sachs, o banco mais poderoso do planeta. Ninguém ria da piada com deboche. Era uma declaração de intenção.

Em 2009, com os ativos do UBS Pactual desvalorizados pela crise, Esteves ofereceu US$ 2,5 bilhões para recomprar o banco que havia vendido por US$ 2,6 bilhões. Os suíços aceitaram. Ou seja, ele ficou com o banco de volta, pagou US$ 100 milhões a menos do que havia recebido, e ainda carregava no bolso o lucro dos três anos como executivo do UBS. Foi considerado um dos movimentos mais elegantes — e mais frios — da história do mercado financeiro brasileiro.

Em 2012, o BTG Pactual abriu capital na Bolsa de Valores de São Paulo em um dos maiores IPOs da história brasileira, levantando US$ 2 bilhões. No mesmo ano, André Esteves foi multado em € 350 mil pela Consob, a reguladora italiana, por insider trading em uma operação na Itália. O episódio foi rapidamente esquecido pelo mercado. Afinal, o banco valia demais para que qualquer coisa pequena o derrubasse.

23 dias em Bangu — e o banco que sobreviveu sem ele

Em dezembro de 2015, a Operação Lava Jato chegou ao nome de André Esteves. Uma gravação do senador Delcídio do Amaral sugeria que o banqueiro estaria colaborando para obstruir investigações em curso. Em 25 de novembro daquele ano, ele foi preso e levado para a Penitenciária Bangu 8, no Rio de Janeiro. O impacto foi imediato: as ações do BTG despencaram, clientes correram para resgatar aplicações, e o banco se viu forçado a vender ativos às pressas — entre eles o BSI, banco suíço de gestão de fortunas que havia comprado apenas cinco meses antes.

Foram 23 dias preso. A prisão preventiva foi convertida em domiciliar por decisão do Supremo Tribunal Federal. Em abril de 2016, até a prisão domiciliar foi revogada — por falta de provas. Em julho de 2018, foi absolvido de todas as acusações. Portanto, o maior banqueiro privado do Brasil havia passado por prisão, afastamento compulsório e três anos de investigações — e saído do outro lado sem uma única condenação.

O BTG, nesse interim, havia sobrevivido graças a Pérsio Arida — ex-presidente do Banco Central e sócio histórico — que assumiu o comando e evitou a fuga total de recursos. A corrida dos clientes foi real: o banco teve que se desfazer de participações em empresas como Rede D’Or, Equatorial Energia e Recovery Consultoria para honrar resgates. Arida venderia suas ações em 2017. Esteves voltaria como consultor sênior ainda em 2016 e, em 2018, retornou ao grupo controlador. Em abril de 2022, os acionistas o reelegeram chairman do conselho de administração. O retorno foi, nos termos do próprio mercado financeiro, épico.

A reconstrução silenciosa: de US$ 2,7 bilhões presos em Bangu a US$ 19,4 bilhões no topo

Quando foi preso em 2015, a fortuna de André Esteves era estimada em US$ 2,7 bilhões. Em março de 2026, a Forbes registrou US$ 19,4 bilhões — o equivalente a R$ 104 bilhões. É o segundo homem mais rico do Brasil, atrás apenas de Eduardo Saverin, cofundador do Facebook. Nesse sentido, sua fortuna cresceu mais de sete vezes desde o momento mais sombrio de sua carreira.

O BTG Pactual, sob sua influência renovada, ultrapassou US$ 300 bilhões em ativos sob gestão, expandiu operações para Europa e América do Norte e construiu uma plataforma digital que leva produtos financeiros sofisticados a investidores de varejo. Em 2025, o banco avançou pesado no mercado de commodities agrícolas, apostando na tese de que o Brasil será o centro do abastecimento alimentar global nas próximas décadas. Ou seja, Esteves não apenas voltou — voltou com uma estratégia mais ampla, mais global e mais diversificada do que antes.

Em contrapartida, o perfil público de Esteves ficou notavelmente mais discreto após a crise. O banqueiro que costumava dar entrevistas e aparecer em rankings de executivos do ano passou a operar mais nos bastidores. Chega ao escritório às 6h30 da manhã. Convoca reuniões às 22h. Estuda com diretores do banco na própria casa. A ambição não sumiu — apenas mudou de endereço.

Nova York, maio de 2026 — e o BTG de olho em Maricá

Em 13 de maio de 2026, André Esteves participou de um evento promovido pelo Financial Times e pela revista Veja em Nova York — um dos encontros mais seletos do calendário econômico brasileiro no exterior. Foi lá que o prefeito de Maricá, Washington Quaquá, iniciou conversas com o banqueiro sobre a instalação de um grande data center do BTG Pactual no município fluminense. Segundo Quaquá, Esteves chegou a citar Maricá em sua palestra e demonstrou interesse concreto no projeto. Afinal, a cidade tem o que poucos municípios brasileiros oferecem: infraestrutura energética robusta, receita garantida de royalties do petróleo e um prefeito disposto a negociar. Portanto, o homem que foi para Bangu em 2015 estava, dez anos depois, sendo cortejado por prefeituras numa conferência em Manhattan. Isso, talvez, diga mais sobre sua trajetória do que qualquer número da Forbes.

O que a história de André Esteves revela sobre poder e resiliência

André Esteves não é um personagem simples. Construiu uma fortuna extraordinária partindo do zero, em um mercado brutalmente competitivo, com ferramentas que poucos tinham — matemática afiada, paciência estratégica e tolerância a risco fora do comum. Em contrapartida, acumulou controvérsias ao longo do caminho: a multa italiana por insider trading, as sombras da Lava Jato, os questionamentos sobre suas relações com o poder político. A absolvição não apaga as perguntas — e as perguntas não apagam a construção. O que sua trajetória revela, sobretudo, é que no capitalismo brasileiro, quem domina as regras do jogo tem chances reais de sobreviver até os momentos em que o jogo muda completamente. Esteves sobreviveu à Lava Jato, ao colapso do BTG, ao afastamento forçado e à pressão da opinião pública. Voltou mais rico, mais poderoso e, aparentemente, mais discreto. Isso diz algo sobre ele — e diz algo, também, sobre o país.

💬 Você acha que André Esteves merece ser admirado pela trajetória ou o histórico de controvérsias pesa demais? Deixa sua opinião nos comentários.

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