Bicicleta Bugatti: quanto custa e por que ela vale R$ 133 mil

A bicicleta mais cara do mundo que você vai pendurar na parede

A Bugatti Factor ONE foi revelada em março de 2026 em parceria com a fabricante britânica Factor Bikes, em carbono aeronáutico, garfo 32 milímetros mais largo do que qualquer regulamento da UCI permite, elefante dançarino estampado no quadro e preço de partida em US$ 23.599 — ou seja, mais caro do que um Toyota Corolla zero quilômetro saindo da concessionária. Serão fabricadas exatas 250 unidades no mundo inteiro. E você já sabe que a maioria vai passar a eternidade pendurada na parede de algum bilionário do Oriente Médio.

Antes de falar da bicicleta, é preciso falar do homem. Ettore Arco Isidoro Bugatti nasceu em Milão em 1881, filho de Carlo Bugatti — designer de móveis em estilo Art Nouveau —, irmão de Rembrandt Bugatti — escultor de animais famosos —, e neto de Giovanni Luigi Bugatti, arquiteto e escultor. Uma família inteira de artistas que, a cada geração, encontrava uma nova maneira de fazer coisas bonitas com as mãos. Ettore apenas decidiu que as suas coisas bonitas deveriam andar a 300 quilômetros por hora.

Em 1909, ele fundou sua fábrica em Molsheim, na Alsácia — cidade que era alemã quando ele chegou, virou francesa depois da Primeira Guerra e continuou sendo Bugatti independente de qualquer bandeira. Era um homem de feitio difícil, que dizia a clientes reclamantes: “Monsieur, se você pode comprar um Type 35, certamente pode pagar por uma garagem aquecida.” E quando alguém se queixava dos freios, respondia simplesmente: “Faço meus carros para andar, não para parar.” Era esse o nível de paciência do fundador.

Bugatti Type 35, 1924 — o carro de corrida mais vitorioso da história, com mais de 2.000 vitórias

O Type 35, lançado em 1924, é o ponto de partida da lenda. Oito cilindros em linha, dois litros de cilindração, rodas de alumínio fundido, carroceria em forma de gota d’água — uma obsessão aerodinâmica numa época em que a palavra “aerodinâmica” mal existia nos dicionários de engenharia. O carro acumulou mais de 2.000 vitórias em competição, dominou a Targa Florio por cinco anos consecutivos (de 1925 a 1929) e até hoje é o automóvel de corrida com mais vitórias na história do esporte. É também a inspiração declarada da nova bicicleta — o que é, no mínimo, uma pretensão monumental para um objeto sem motor.

O irmão Rembrandt, aquele escultor de animais, criou o famoso elefante dançarino que enfeita o capô do Bugatti Royale Type 41 de 1926 — o carro mais luxuoso já construído até então, com 6 metros de comprimento, 12,7 litros de motor e exatas seis unidades fabricadas. O mesmo elefante aparece agora estampado na bicicleta de US$ 23.599. Rembrandt, que morreu aos 31 anos em 1916, provavelmente não imaginou que seu elefante um dia viajaria sobre duas rodas movidas a pernas humanas.

A Factor Bikes, empresa britânica fundada por Rob Gitelis, já afirmava que sua bicicleta ONE era “a mais rápida do mundo dentro das regras da UCI”. Quando a Bugatti entrou na parceria, a primeira decisão foi jogar as regras pela janela. O garfo da versão Bugatti mede 147 milímetros de largura — 32 milímetros acima do limite legal para competições. Isso reduz o arrasto aerodinâmico, melhora a estabilidade dianteira e, principalmente, garante que você nunca poderá usar essa bicicleta numa corrida oficial. O que é uma solução elegante para quem nunca teve intenção de pedalar.

O quadro é inteiramente em fibra de carbono com acabamento que espelha o tecido tridimensional dos carros da marca. As rodas — Black Inc Bugatti Hyper 62 — pesam 1.298 gramas o par (menos de 3 libras), com aros de 62 milímetros em carbono. O selim é da Selle Italia, com acabamento em Alcantara, o mesmo material encontrado no interior do Bugatti Tourbillon, o hipercarro de € 4 milhões lançado em 2024. Os pneus são da Continental, desenvolvidos especificamente para este projeto, com flancos em azul French Racing Blue. Até o sistema de entrega foi pensado: cada bicicleta chega montada dentro de uma bolsa especial da Factor, com bolsas de garrafa integradas e suporte para computador. Para quem gasta US$ 23.599 numa bicicleta, não é aceitável montar a própria roda.

A cor, claro, é o Bugatti Blue — aquele azul escuro e aristocrático que a marca usa desde os primeiros Type 35 que circularam pelos circuitos europeus nos anos 1920. Dois tons de azul dividem o quadro ao meio, com gráficos brancos e o logotipo BUGATTI em letras maiúsculas correndo pelo tubo diagonal. Não há como ser sutil quando se está gastando o equivalente a um carro popular numa bicicleta.

O preço, diga-se, exige contextualização. A versão padrão da Factor ONE — sem Bugatti, sem elefante, sem azul francês — começa em US$ 7.599 e pode chegar a US$ 14.499, dependendo dos componentes. A versão Bugatti, portanto, representa um acréscimo de pelo menos US$ 9.100 para ter o nome e os detalhes da marca. O Corolla, para comparação, sai das concessionárias americanas por US$ 22.925. Existe ainda no catálogo da Factor uma bicicleta chamada Hanzō Track Paris Edition, cujo preço começa em US$ 59.999 — o que torna a Bugatti quase uma pechincha em comparação. Quase.

A Bugatti, por sua vez, não fabrica mais de 80 a 100 carros por ano em Molsheim. O Tourbillon já está esgotado nas 250 unidades previstas, com clientes pagando entre € 4 e € 15 milhões por versões únicas. A lista de espera inclui reis, bilionários e colecionadores. O que significa que a bicicleta de US$ 23.599, para o público habitual da marca, é literalmente o produto mais acessível que a Bugatti já lançou na história.

Rob Gitelis, fundador da Factor, disse no lançamento: “A Bugatti Factor ONE não é simplesmente uma bicicleta. É uma declaração.” Wiebke Ståhl, diretora de marca da Bugatti International, completou: “Demonstra que nossa busca por excelência se estende além dos hipercars.” São frases que soam exatamente como o que são — comunicados de imprensa bem redigidos. Mas, por baixo do mármore retórico, existe uma engenharia real: o garfo mais largo de fato reduz o arrasto, as rodas de fato pesam menos de 1,3 quilos, e o quadro de fato usa o mesmo conceito de peso versus rigidez que a Bugatti aplica há cem anos nos seus automóveis.

A questão, naturalmente, é outra. A UCI — União Ciclística Internacional — existe justamente para impedir que dinheiro ilimitado defina vencedores em corridas de bicicleta. A Bugatti Factor ONE, com seu garfo ilegal, não pode competir em nenhuma etapa do Tour de France, nenhuma prova do World Tour, nenhum campeonato oficial do esporte. É uma bicicleta projetada para ser mais rápida do que as regras permitem, para ser usada por pessoas que não precisam de regras — porque já têm tudo o que as regras deveriam proteger.

Moral da história: Ettore Bugatti passou a vida inteira fazendo objetos impossíveis de ignorar. Morreu em 1947, antes de ver o nome da família virar sinônimo de ostentação absoluta. O irmão Rembrandt, o escultor do elefante, morreu ainda mais cedo, aos 31 anos, sem ver nenhum de seus animais em bronze ser reproduzido em fibra de carbono. E a bicicleta que carrega o sobrenome de ambos vai ser produzida em 250 exemplares, vendida para colecionadores que dificilmente vão pedalar, e provavelmente vai valer o dobro em dez anos.

Quer dizer: “A cópia do elefante é nossa” — e custa mais do que um Corolla.


Bugatti Factor ONE — ficha técnica

  • Preço: a partir de US$ 23.599 (aprox. R$ 133.000)
  • Unidades: 250 no mundo inteiro
  • Garfo: 147 mm (ilegal para competições UCI)
  • Rodas: Black Inc Bugatti Hyper 62 — 1.298g o par
  • Pneus: Continental GP 5000 TT — flancos French Racing Blue
  • Quadro: carbono com acabamento idêntico aos carros Bugatti
  • Selim: Selle Italia com Alcantara
  • Cor: Bugatti Blue two-tone com gráficos brancos
  • Entrega: montada, em bolsa exclusiva Factor/Post Carryco Loomer

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Conheça a bicicleta no site oficial da Bugatti: bugatti.com

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