O Homem que Jurou Não Ter Casa — e Hoje É Dono de R$ 19 Bilhões em Terra Texana

Por que o homem mais rico do planeta largou mansões de US$ 100 milhões na Califórnia, jurou que não teria mais casa — e foi construir uma cidade inteira no meio do Texas

Em maio de 2020, Elon Musk — homem cuja fortuna já beirava os US$ 400 bilhões e que disputava com Jeff Bezos o título de ser humano mais rico da história da humanidade — publicou um tuíte de apenas oito palavras: “I am selling almost all physical possessions. Will own no house.” Vou vender quase tudo que tenho. Não terei casa.

O mundo inteiro riu. Alguns aplaudiram. Outros desconfiaram.

Todos estavam certos.

Vista aérea de Austin, Texas, com a Gigafactory.

Porque aquele tuíte zen foi publicado numa terça-feira. Na quarta-feira seguinte, Musk já havia colocado à venda quatro mansões californianas por um total de US$ 137 milhões. “Vender tudo” significava, aparentemente, coisas diferentes dependendo do tamanho da sua conta bancária. Para você, para mim, significaria uma virada existencial. Para Musk, era apenas reorganizar o tabuleiro — e mudar o estado.

Das Mansões de Bel-Air ao Container de US$ 50 Mil

Antes de entender o Texas, é preciso entender o que Musk deixou para trás na Califórnia. A história é, no mínimo, pitoresca.

Em 2012, ele comprou sua primeira mansão em Bel-Air — o bairro de Los Angeles onde habitam atores de Hollywood e executivos que já esqueceram quanto dinheiro têm — por US$ 17 milhões. A propriedade somava 20.248 metros quadrados de área construída: sete quartos, treze banheiros, quadra de tênis, adega para mil garrafas de vinho e vista para o famoso Bel-Air Country Club. Era o tipo de casa que aparece em filme de espião quando o roteirista quer mostrar que o vilão é incrivelmente rico. Em 2020, Musk vendeu-a por US$ 29,72 milhões — para um bilionário chinês chamado William Ding. Lucro de quase US$ 13 milhões. Para quem “não quer ter casa”, não foi mau negócio.

Em 2013, comprou a casa do ator Gene Wilder — o eterno Willy Wonka do cinema —, transformou-a numa escola particular batizada de Ad Astra para os filhos e sobrinhos de funcionários da Tesla e da SpaceX, e ao vendê-la impôs uma única condição: que a propriedade jamais perdesse sua “alma”. Era um gesto tão sentimental que quase fazia esquecer que o sujeito estava, na mesma semana, desmontando um portfólio imobiliário de US$ 100 milhões.

Casa de Gene Wilder em Bel-Air transformada na escola Ad Astra por Elon Musk.

Somando Bel-Air, Brentwood e a mansão histórica francesa de Hillsborough — uma propriedade de nove quartos e nove banheiros com salão de baile, biblioteca com bar escondido e afresco do século XVIII chinês —, Musk desfez-se de um portfólio estimado em mais de US$ 100 milhões. E foi-se para o Texas.

E foi para o Texas anunciar, com a solenidade de quem acabou de atingir a iluminação, que sua nova morada seria uma casinha pré-fabricada de US$ 50 mil em Boca Chica. Trinta e sete metros quadrados. Alugada da própria SpaceX. A três quilômetros da base de lançamento de foguetes.

Sua mãe, Maye Musk, certa vez contou que dormiu na garagem quando foi visitá-lo.

O homem mais rico do planeta. Num container. Perto de foguetes.

O Texas que Musk Não Contou

Mas aí está a virada da história.

Enquanto habitava seu container filosófico em Boca Chica e pregava o evangelho do minimalismo no X (então ainda chamado Twitter, empresa que ele mesmo compraria por US$ 44 bilhões em 2022, porque aparentemente “não ter posses” tem seus limites), as empresas de Musk — Tesla, SpaceX, Boring Company e outras onze entidades jurídicas com nomes inofensivos como “Colorado River Project” ou “Dogleg Park” — compravam terra texana em silêncio e em quantidade industrial.

Segundo levantamento do Houston Chronicle publicado em setembro de 2025, que vasculhou os registros imobiliários dos 254 condados do Texas, as empresas vinculadas a Musk possuem hoje mais de 500 propriedades cobrindo 24.000 hectares no estado. Vinte e quatro mil hectares: algo em torno de 24 quilômetros quadrados. Uma cidade de tamanho razoável.

Mapa aéreo mostrando a extensão da Gigafactory da Tesla em Austin, Texas.

A joia da coroa é a Giga Texas — a fábrica da Tesla nos arredores de Austin, instalada em 1.011 hectares que já somam mais de 10 milhões de metros quadrados de área construída, onde são produzidos o Model Y e o lendariamente polêmico Cybertruck. Para dar uma noção de escala: o Maracanã tem capacidade para 78 mil pessoas. A Giga Texas caberia — com folga — dentro de si mesma umas trezentas vezes.

Para fins de tributação — e os texanos são criativos com essas avaliações —, o portfólio imobiliário de Musk no estado está avaliado em US$ 3,4 bilhões. Ao câmbio atual, algo em torno de R$ 19 bilhões. Em bens imóveis.

O homem que não queria ter casa.

A Villa Toscana em Pleno Texas

E então chegamos ao coração desta reportagem.

Em outubro de 2024, o New York Times revelou que Musk havia comprado, discretamente, um conjunto de propriedades residenciais em Austin avaliadas em US$ 35 milhões — para montar o que ele mesmo descreveu a pessoas próximas como um compound familiar. Um condomínio privado para seus filhos — que a essa altura já somavam ao menos onze, distribuídos entre três mães — e para as próprias mães, desde que não estivessem em disputa judicial com ele. O que, convenhamos, já é uma peneira considerável.

Villa toscana de 14400 pés quadrados em Austin Texas parte do compound familiar de Elon Musk avaliado em 35 milhões de dólares

Villa de estilo toscano em Austin, Texas, parte do complexo familiar de Elon Musk.

A propriedade-âncora do complexo é uma villa de estilo toscano com 14.400 pés quadrados — pouco mais de 1.300 metros quadrados — que evoca, curiosamente, a arquitetura da Toscana italiana transplantada para o calor seco do Texas central. Atrás dela, conectada, uma mansão de seis quartos. A 10 minutos de caminhada, uma terceira propriedade, onde o próprio Musk se instala quando está em Austin e não está acompanhando Donald Trump em campanha eleitoral, doando US$ 132 milhões para reeleger presidentes ou gerindo as seis empresas que mantém em operação simultânea.

O bairro, vale dizer, não é uma das encravadas comunidades cercadas que imaginamos quando pensamos em bilionários. É um bairro denso e sem guaritas. Segundo vizinhos ouvidos pelo Times, a única maneira de saber que Musk está em casa é o reforço de segurança que aparece subitamente — e, detalhe igualmente revelador, a chegada de um groomer particular para cuidar de um cão pequeno.

Um dos mais ricos do mundo. Num bairro comum. Com um cachorrinho.

A Investigação Federal e o Plano que Deu Errado

Mas nem tudo saiu como planejado.

Musk tinha ambições maiores para sua nova vida texana. Queria construir o complexo familiar em centenas de hectares de terra fora de Austin, próximo à sede da Tesla, em terras de sua propriedade. O plano, segundo o Times, desmoronou após uma investigação federal. O Wall Street Journal noticiou que promotores federais apuravam o uso de recursos da Tesla para financiar um projeto secreto descrito internamente como “uma casa para o CEO.” A Tesla, em resposta, negou irregularidades.

O que ficou foi o complexo urbano de US$ 35 milhões — ocupado, por enquanto, principalmente por Shivon Zilis, executiva da Neuralink e mãe de três dos filhos de Musk, que se mudou para lá com as crianças. Grimes — cantora e mãe de outros três filhos — estava em litígio judicial com Musk pela guarda dos filhos e não participou do arranjo. Justine Musk, primeira esposa e mãe de cinco filhos, tampouco.

O complexo dos sonhos, no fim das contas, está mais para condomínio parcialmente habitado do que para o falanstério futurista que Musk idealizou.

Shivon Zilis executiva da Neuralink que se mudou para o compound familiar de Elon Musk em Austin Texas

Shivon Zilis, executiva da Neuralink e mãe de filhos de Musk, em evento público

Snailbrook e Starbase: O Homem Que Quer Ser Prefeito do Próprio País

Além do complexo familiar, o projeto imobiliário de Musk no Texas tem dimensões que extrapolam o residencial e chegam a ser, dependendo da perspectiva, visionário ou simplesmente assustador.

Em Bastrop — cidade de crescimento acelerado a 56 quilômetros de Austin —, Musk planeja erguer uma cidade inteira para os funcionários de suas empresas. Batizou-a de Snailbrook, em homenagem ao caracol que é o mascote da Boring Company, sua empresa de túneis. O caracol, vale dizer, é um símbolo curiosíssimo para uma empresa que vende velocidade — mas ninguém ainda teve coragem de apontar isso para Musk. O plano inclui casas modulares acessíveis, um bar, lojas, uma quadra de pickleball e um parquinho grande o suficiente para abrigar todos os filhos de Musk ao mesmo tempo. O que, dado o ritmo de crescimento da prole — catorze filhos até o momento em que esta reportagem foi escrita —, já é por si só um desafio de engenharia.

No extremo sul do estado, em Boca Chica, a área batizada de Starbase — base de lançamentos da SpaceX e futura cidade-empresa — tem na lista de desejos um restaurante de US$ 6 milhões e um shopping de US$ 9 milhões. Em 2024, Musk tentou transformar Starbase em município oficial. A lista de candidatos à prefeitura incluía — surpresa de surpresas — o próprio gerente de segurança da SpaceX.

Um professor da Universidade McMaster que estuda o estilo de gestão de Musk resumiu tudo com a precisão de quem já desistiu de se surpreender: “Elon Musk tem mais controle no Texas do que em qualquer outro lugar do mundo.”

Moral da História

Há uma ironia bonita — e um pouco cruel — no arco desta narrativa.

O homem que em 2020 declarou publicamente não querer possuir nada hoje controla, entre empresas e propriedades pessoais, mais de R$ 19 bilhões em imóveis no Texas. Construiu uma escola privada dentro da casa de Willy Wonka. Planeja cidades. Tenta eleger prefeitos. Dorme num container de 37 metros quadrados quando está na base de foguetes e, quando está em Austin, instala-se numa villa de estilo toscano em bairro comum, identificado pelos vizinhos apenas pela súbita chegada de seguranças e de um cachorro bem penteado.

Em 2026, Elon Musk é, segundo a Forbes, o ser humano mais rico que já existiu sobre a Terra — com patrimônio estimado entre US$ 682 bilhões e US$ 726 bilhões, quase o triplo da fortuna do segundo colocado, Larry Page, do Google.

Não tem casa, claro.

Só tem um império.

Você acha que Musk é um gênio incompreendido ou um bilionário comprando o mundo aos pedaços? Deixa nos comentários.

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