De Mogi das Cruzes à Copa do Mundo — 807 dias parado, uma Kombi velha e um sonho que não morreu
Todo mundo já tinha decretado o fim. Neymar não recebeu o comunicado
Outubro de 2023. O joelho esquerdo de Neymar cedeu em campo durante Brasil x Uruguai pelas Eliminatórias. Ele saiu carregado, chorando, com o rosto enterrado nas mãos. As câmeras captaram tudo. O mundo assistiu.
Portanto, boa parte dele — incluindo jornalistas, ex-jogadores e até torcedores do Brasil — começou a escrever o epitáfio esportivo do maior artilheiro da história da Seleção. Ruptura do ligamento cruzado anterior. Lesão no menisco. Cirurgia. Reabilitação. Depois, mais lesões musculares. Depois, mais tempo parado.
Desde janeiro de 2023, Neymar acumulou 11 lesões, duas cirurgias e 807 dias fora dos gramados — o equivalente a mais de dois anos inteiros sem jogar com regularidade. Para qualquer atleta comum, isso seria o fim da linha. Para Neymar, foi apenas o capítulo mais duro antes da virada.
Quando Carlo Ancelotti anunciou a convocação do camisa 10 do Santos para a Copa do Mundo de 2026, a imprensa internacional parou. O Washington Post publicou a foto de um torcedor com um cartaz: “A nossa esperança do hexa.” A Reuters lembrou os “problemas com lesões.” O Marca, da Espanha, chamou de “bomba mundial.” Afinal, ninguém esperava. Ou melhor — ninguém ousava esperar.
O menino que cresceu do lado da Vila Belmiro
Para entender o tamanho dessa volta, é preciso voltar ao começo. Neymar da Silva Santos Júnior nasceu em 5 de fevereiro de 1992 em Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo. A família não tinha muito — morava com avós, tias e primos, nove pessoas em uma casa de três cômodos. O pai, Neymar Santos Sr., era mecânico e ex-jogador amador. A bola era o brinquedo mais barato e o sonho mais caro da casa.
Aos 11 anos, a família se mudou para Santos. Portanto, foi perto da Vila Belmiro que o garoto franzino — que os vizinhos chamavam de Juninho — começou a frequentar as categorias de base do Santos FC. Todo dia a mesma rotina: escola de manhã, treino à tarde, futsal à noite. O pai levava e buscava. A condução era uma Kombi velha, barulhenta, que enfrentava o trânsito da Baixada Santista com a dignidade de quem não tem outra opção.
Nesse sentido, aquela Kombi não era apenas um carro. Era o símbolo de uma família que apostou tudo num filho que ainda não havia provado nada. Sobretudo, o garoto carregava esse peso com leveza — como quem nasce para o futebol e sente que a pressão é parte do jogo, não obstáculo.
O garoto que mandaram para a diretoria — e virou ídolo
A diretora do Instituto Educacional Lupe Picasso, escola onde Neymar estudou perto da Vila Belmiro, guarda até hoje recordações do menino Juninho. Quando perguntada se ele já foi mandado à diretoria, respondeu com bom humor: “Já, algumas vezes. Com certeza.”
O amigo de infância Felipe Ferrari lembra que a dupla estudava de manhã, almoçava e ia para o treino do Santos à tarde. Depois, ainda tinha o futsal à noite. Uma rotina exaustiva para um pré-adolescente. Mas Neymar nunca reclamou. Afinal, ele estava exatamente onde queria estar.
Em 2009, com apenas 17 anos, estreou como profissional. Em 2011, conquistou a Copa Libertadores — competição que o Santos não vencia há 48 anos, desde a era Pelé. Neymar marcou na final. O estádio da Vila Belmiro explodiu. Portanto, o menino que chegou numa Kombi velha tinha acabado de colocar seu nome na história do clube mais importante da sua vida.

O paralelo que ninguém quer assumir — mas todo mundo pensa
Existe uma história no futebol brasileiro que se parece demais com a de Neymar. Ronaldo Fenômeno. R9. O cara que, em 1994, antes dos 18 anos, já estava numa Copa do Mundo. Que foi eleito o melhor jogador do planeta em 1996, 1997 e 2002. Que sofreu convulsões misteriosas na véspera de uma final de Copa.
Que passou anos destruído por lesões no joelho — duas rupturas no tendão patelar, cirurgias, dúvidas sobre voltar a andar normalmente, que dirá jogar bola. Portanto, em 2002, quando o Brasil chegou ao Japão para disputar a Copa do Mundo, Ronaldo era uma interrogação enorme. Os médicos tinham cautela. Os torcedores tinham fé.
E ele — aquela barriga, aquele cabelo absurdo, aquele sorriso — foi lá e fez dois gols na final contra a Alemanha. Campeão. Melhor jogador do torneio. Afinal, a maior volta por cima da história do futebol mundial havia acabado de acontecer diante dos olhos de todo o planeta.
Neymar não é Ronaldo. Ninguém é. Mas o arco narrativo é perturbadoramente parecido. Lesão grave no joelho. Anos de reabilitação. Dúvidas sobre o futuro. Retorno ao clube de origem para recuperar o ritmo. Convocação surpreendente para uma Copa que pode ser a última da carreira. Ou seja, o roteiro já foi escrito uma vez — e terminou com o Brasil levantando a taça.
45 jogos, 18 gols e um recado silencioso
Desde que voltou ao Santos em janeiro de 2025, Neymar acumulou 45 jogos, 18 gols e 9 assistências. Números que, para um atleta de 34 anos saindo de duas cirurgias, representam muito mais do que estatísticas. Representam sobrevivência.
Em contrapartida, há quem questione se ele está no nível técnico de uma Copa do Mundo. É uma dúvida legítima. Mas Ancelotti não convoca jogadores por caridade — convoca quem ele acredita que pode decidir jogos. Portanto, Neymar, com 79 gols em 128 partidas pela Seleção, ainda é o jogador mais decisivo que o Brasil tem.
A Copa que pode fechar o círculo
O Brasil está no Grupo C da Copa do Mundo de 2026, ao lado de Marrocos, Haiti e Escócia. A estreia acontece em 13 de junho, no MetLife Stadium, em Nova York — o mesmo estado onde o sonho americano é vendido em cada esquina. Portanto, o cenário não poderia ser mais simbólico para um jogador que passou a carreira inteira sendo comparado a mitos e nunca conquistou o único título que falta.
Neymar disputou três Copas do Mundo — 2010, 2014 e 2018. Em 2014, no Brasil, chegou até as semifinais antes de se machucar. O país chorou. Em 2018, saiu nas quartas de final. Em 2022, nem foi — estava lesionado quando a Seleção foi eliminada pela Croácia. Sobretudo, cada Copa deixou uma cicatriz diferente. Nesse sentido, 2026 não é só mais uma tentativa. É a última chance real de transformar uma carreira extraordinária em carreira completa.
O que Ancelotti enxerga que os céticos não veem
Carlo Ancelotti não é um técnico sentimental. É um dos maiores vencedores da história do futebol europeu — Champions League com Milan, Chelsea e Real Madrid, entre outros títulos. Quando ele convoca um jogador de 34 anos saindo de lesão grave, não é por nostalgia. É porque enxerga algo que os números frios não capturam: a capacidade de mudar um jogo com um drible, uma assistência, um gol nos últimos minutos.
Afinal, Neymar fez isso a vida inteira. Fez no Santos, fez no Barcelona ao lado de Messi e Suárez no famoso trio MSN, fez no PSG quando sozinho carregou uma equipe inteira nas costas durante anos. Fez pela Seleção em 128 jogos e 79 gols. Portanto, a pergunta não é se ele ainda é capaz. A pergunta é se o corpo vai aguentar. E essa — infelizmente — só o tempo responde.

807 dias, uma Kombi e o peso de 200 milhões de torcedores
Existe algo muito difícil de quantificar no futebol: o que separa um jogador que volta de lesão de um jogador que realmente volta. Neymar voltou ao Santos em janeiro de 2025 diferente. Mais calmo. Mais focado. Menos preocupado com a polêmica e mais atento ao jogo.
O próprio clube sentiu a diferença. O historiador oficial do Santos, Guilherme Guarche, disse que Neymar “é cria da casa, foi criado aqui na Vila Belmiro a partir dos 11, 12 anos, começou a jogar pelo Santos e pegou amor pelo clube. Assim como foi o Pelé, o Robinho.” Nesse sentido, há uma continuidade histórica nessa volta que vai muito além do futebol. É a Vila completando um ciclo.
Portanto, quando o pai presenteou o filho com a Kombi “Filomena” — batizada em homenagem à velha condução da infância — e Neymar foi dirigindo ela ao CT na semana seguinte, aquilo não foi marketing. Foi memória afetiva em movimento. Foi o bilionário lembrando que um dia foi apenas o Juninho da Baixada Santista, com uma mochila nas costas e um sonho enorme demais para caber numa Kombi.
A estreia que o Brasil inteiro vai parar para ver
Em 13 de junho de 2026, o Brasil enfrenta Marrocos no MetLife Stadium, em Nova York, pela primeira rodada do Grupo C. Neymar deve estar em campo. Afinal, Ancelotti não convocou o camisa 10 para deixá-lo no banco nos primeiros jogos — convocou porque precisa dele funcionando desde o início.
Sobretudo, o peso desse momento é histórico. Será a quarta Copa de Neymar. Possivelmente a última. E acontece num país estrangeiro, num estádio de futebol americano adaptado, diante de uma geração de brasileiros que cresceu assistindo a ele driblar, chorar, cair e se levantar. Em contrapartida ao ceticismo de muitos, há uma fé coletiva difícil de ignorar. O Brasil já viu Ronaldo fazer isso. E o brasileiro — quando quer acreditar — acredita com tudo.
Existe algo muito brasileiro nessa história. Um garoto de família simples, criado do lado de um estádio, que passou a infância numa Kombi barulhenta indo e vindo de treinos. Que virou o jogador mais caro da história do futebol. Que caiu, se machucou, foi embora, voltou — e chegou à sua quarta Copa do Mundo aos 34 anos, saindo de 807 dias de lesões. A comparação com Ronaldo Fenômeno não é exagero. É esperança com base histórica. O Brasil já viu isso antes. E se der certo de novo, ninguém vai querer dizer que não acreditava.
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