Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões a um banqueiro fraudador para financiar um filme sobre o pai — e chamava o suspeito de “irmão” no WhatsApp.
Era uma vez um banqueiro, um senador e um filme. Parece ficção.
Imagine a cena: é 16 de novembro de 2025. Um senador da República, pré-candidato à presidência, abre o WhatsApp e digita para um banqueiro investigado por fraude bilionária: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”
No dia seguinte, esse banqueiro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos, tentando embarcar para Dubai em um jato particular. Dois dias depois, seu banco foi liquidado pelo Banco Central — com um rombo de R$ 47 bilhões.
Na prática, a “luz” que Flávio Bolsonaro pedia era dinheiro. R$ 134 milhões, para ser exato. O destino desse dinheiro não era nenhum investimento financeiro, nenhum negócio produtivo, nenhuma causa nobre. Era um filme. Sobre o pai. Com Jim Caviezel — o mesmo ator que interpretou Jesus Cristo em A Paixão de Cristo — no papel de Jair Bolsonaro.
Portanto, bem-vindo à história mais improvável, mais cara e mais constrangedora de 2026.
O filme que ninguém deveria saber que existia
Dark Horse — traduzido livremente como “O Azarão” — é uma cinebiografia sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro desde a campanha de 2018, com foco no atentado à faca em Juiz de Fora. O roteiro é assinado por Mário Frias — sim, o mesmo deputado federal que foi Secretário de Cultura do governo Bolsonaro. A direção ficou a cargo de Cyrus Nowrasteh, cineasta iraniano-americano. A produção é de Eduardo Verástegui, o mesmo que produziu Som da Liberdade, outro filme com forte agenda política.
O elenco é hollywoodiano — ou pelo menos tenta ser. Além de Caviezel como Bolsonaro, há Marcus Ornellas como Flávio, Sérgio Barreto como Carlos e Eddy Finlay como Eduardo. A estreia está marcada para 11 de setembro de 2026 — data escolhida, não por acaso, a poucas semanas das eleições presidenciais brasileiras, nas quais Flávio pretende ser candidato.
Afinal, ninguém disse que era um projeto apolítico.
As filmagens ocorreram de outubro a novembro de 2025 em São Paulo, com celulares confiscados e equipe de segurança vigiando cada canto — o nível de sigilo que se reserva para operações militares, não para produções cinematográficas. Sobretudo, o sigilo não foi suficiente: figurantes vazaram imagens, o Sindicato dos Artistas registrou denúncias de agressões no set, comida estragada e restrições absurdas ao uso do banheiro. E a equipe jurídica de Beyoncé entrou com ação por uso não autorizado de uma música no teaser. Ou seja, antes mesmo de estrear, o filme já acumulava mais processos do que cenas.
“Fala, irmãozão” — a amizade que o Intercept revelou
Durante meses, a origem do dinheiro que financiou Dark Horse permaneceu uma incógnita. Então, na quarta-feira (13 de maio), o Intercept Brasil publicou áudios, mensagens, documentos e comprovantes bancários que responderam à pergunta de uma vez por todas.
O dinheiro veio de Daniel Vorcaro — o dono do Banco Master, preso, investigado por fraude de R$ 47 bilhões, com o maior rombo da história do Fundo Garantidor de Crédito.
E quem negociou pessoalmente com Vorcaro foi Flávio Bolsonaro.
As mensagens revelam uma relação de intimidade que vai muito além de um simples contrato de patrocínio. Flávio chama Vorcaro de “irmão” e “irmãozão”. Manda áudios cobrando pagamentos. Avisa que a produção pode “perder tudo” se o dinheiro não chegar. Em um dos registros mais pitorescos da história recente da política brasileira, o senador diz: “Imagina a gente dando calote no Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos do cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim.”
Portanto, a maior preocupação de um senador da República, em novembro de 2025, era não dar calote no ator de Jesus Cristo.
Em contrapartida, Vorcaro respondia com entusiasmo. “Que demais”, escreveu ao ver o material do filme. “Ficou perfeito.” O mesmo homem que, segundo a PF, operava um esquema de títulos de crédito falsos que gerou perdas bilionárias para investidores comuns — encontrava tempo para avaliar o trabalho cinematográfico da família Bolsonaro.

A defesa — e o nível de convicção com que foi apresentada
Confrontado pelos jornalistas do Intercept, Flávio Bolsonaro negou tudo com uma segurança que só se vê em quem nunca foi gravado. “É mentira, de onde você tirou isso?”, disse, dando uma gargalhada e se afastando. Horas depois, com os áudios já publicados, a versão mudou de tom.
Em nota oficial, Flávio afirmou que conheceu Vorcaro apenas em dezembro de 2024 — quando, segundo ele, “não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro.” O senador declarou não ter “promovido encontros privados fora da agenda”, não ter “intermediado negócios com o governo” e não ter “recebido dinheiro ou qualquer vantagem.”
Nesse sentido, o que ele admitiu — implicitamente — é que buscou ativamente R$ 134 milhões de um banqueiro para financiar um projeto de propaganda política do pai. E que fez isso sem achar que havia qualquer problema nisso. A defesa encerrou com um pedido de CPI do Master — uma manobra que, na prática, transfere o holofote de Flávio para outros investigados do caso.
Ou seja, a estratégia é clássica: quando a casa pega fogo, aponta para o vizinho.
O que Vorcaro comprava — e o que Flávio vendia
Para entender essa história além do escândalo imediato, é preciso olhar para o que cada lado tinha a ganhar. Vorcaro — naquele momento ainda tentando evitar a liquidação do Banco Master e negociando sua venda ao BRB — tinha interesse óbvio em manter relações próximas com figuras políticas de peso. Um senador da família Bolsonaro era, nesse contexto, um ativo valioso.
Flávio, por sua vez, precisava de dinheiro para um projeto que servia a dois objetivos simultâneos: reabilitar a imagem do pai — condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado — e pavimentar a própria candidatura presidencial para 2026. Um filme lançado em 11 de setembro, semanas antes das eleições, com produção hollywoodiana e o ator de Jesus no papel principal, tinha potencial de mobilização eleitoral considerável.
Portanto, não era apenas um filme. Era uma peça de estratégia política financiada com dinheiro de origem investigada — e ambos os lados sabiam exatamente o que estavam fazendo.
Jim Caviezel, Beyoncé e uma produção que virou bagunça
Há um detalhe que resume bem o tom geral dessa produção: a equipe jurídica de Beyoncé precisou entrar com ação legal contra o filme por uso não autorizado de uma música da cantora no teaser. Nesse sentido, em menos de um ciclo de lançamento, Dark Horse já havia irritado uma das artistas mais poderosas do planeta, enfrentado denúncias trabalhistas no set e acumulado investigações sobre a origem de seu financiamento.
Sobretudo, Jim Caviezel — que passou três meses no Brasil gravando e chegou a anunciar publicamente a estreia para 11 de setembro de 2026 — parece não saber, ou preferir não saber, de onde veio o dinheiro que pagou seu cachê. Afinal, o ator que interpretou Jesus e protagonizou Som da Liberdade tem uma marca construída sobre valores morais explícitos. A pergunta que o filme levanta, portanto, não é cinematográfica. É ética.
No Brasil, bilhões desaparecem em fraudes financeiras enquanto investidores comuns ficam na fila do FGC esperando reaver o que é seu por direito. Nesse mesmo período, parte desse dinheiro atravessa o Atlântico, passa por fundos no exterior e financia um filme sobre um político preso — estrelado pelo ator de Jesus Cristo — com estreia programada para véspera de eleição. Não é ficção. É a realidade que o Intercept documentou com áudios, mensagens e comprovantes bancários. Dark Horse pode ou não estrear em setembro. Mas a história por trás dele já é, ela própria, o maior thriller político do ano.
💬 Você acha que um filme financiado por um banqueiro preso deveria estrear normalmente nos cinemas — ou o caso exige investigação antes da estreia? Deixe sua opinião nos comentários.
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