
Morreu ontem, aos 87 anos, o homem que pegou uma empresa de outdoors falida, uma emissora de TV quebrada em Atlanta e a certeza inabalável de que estava certo — e com isso inventou o jornalismo moderno. A conta que ele deixou, em dinheiro e em legado, não fecha em nenhuma calculadora.
Em 1º de junho de 1980, Ted Turner subiu num palco em Atlanta e anunciou para o mundo que sua nova emissora de TV não iria sair do ar. Nunca. Nem de noite, nem aos domingos, nem nos feriados. Jornalismo 24 horas, sete dias por semana — uma ideia que naquela época soava tão absurda quanto promissora. Os céticos foram generosos: chamaram a CNN de “Chicken Noodle News”, algo como “Noticias de Galinhada”. Turner sorriu. Afinal, ele já estava acostumado a ser subestimado.
Dessa forma, começava a história de um dos impérios midiáticos mais improváveis já construídos — e de uma das trajetórias financeiras mais dramáticas do capitalismo americano. Um homem que ganhou bilhões, perdeu bilhões, doou bilhões e ainda assim morreu bilionário. Isso sem mencionar que no caminho criou a CNN, a TNT, o Cartoon Network, salvou o bisão americano da extinção e ainda arrumou tempo para se casar com Jane Fonda.
O outdoor que custou a vida de um pai e construiu um imperio
A história de Ted Turner começa, como tantas histórias bilionárias americanas, com uma herança envenenada. Seu pai, Robert Turner Jr., construiu uma pequena empresa de outdoors na Geórgia e a deixou para o filho em março de 1963 — mas não de forma convencional. Ele se suicidou aos 53 anos, deixando para Ted uma empresa avaliada em cerca de US$ 1 milhão (aproximadamente R$ 5 milhões nos valores de hoje) e uma dívida emocional que o filho levaria décadas tentando quitar.
Turner tinha 24 anos. Em vez de vender, assumiu. Em vez de administrar outdoors para sempre, começou a comprar estações de rádio. E em 1970, adquiriu o que parecia ser um investimento suicida: uma emissora de TV em dificuldades em Atlanta, o Canal 17, que ninguém assistia e que acumulava prejuízos com a consistência de quem tinha talento nisso. Turner encheu a grade com antigas séries de comédia, filmes clássicos e — movimento de gênio — os direitos de transmissão dos jogos do Atlanta Braves. Os telespectadores foram chegando. Os anunciantes foram atrás. E Turner começou a pensar maior.
Em 1976, fez algo que ninguém havia feito antes: transmitiu o sinal do Canal 17 via satélite, alcançando assinantes de TV a cabo em todo o país. Nascia, assim, a primeira superestação da televisão americana. O Sul dos Estados Unidos havia produzido seu primeiro magnata da mídia — e ele ainda mal havia começado.
A CNN: a ideia maluca que mudou o jornalismo para sempre
Turner admitia abertamente que não sabia “absolutamente nada” sobre jornalismo quando fundou a CNN. Por isso, fez a coisa mais inteligente que alguém nessa situação pode fazer: contratou quem sabia. Reese Schonfeld, o presidente fundador da rede, ajudou a montar uma operação que nos primeiros anos funcionava com problemas técnicos constantes, sinais que caíam e apresentadores que improvisavam ao vivo com a desenvoltura de quem não tem outra escolha.
No entanto, Turner sabia que estava criando algo revolucionário antes mesmo de saber exatamente o quê. “Passei 20 anos morando no meu escritório”, disse ele certa vez. “Nos primeiros 10 anos, morei num sofá.” Funcionários de longa data lembravam-no entrando na redação de roupão às sete da manhã, como se a CNN fosse sua casa — porque, na prática, era.
A virada definitiva veio em 1991, durante a Guerra do Golfo Pérsico. Enquanto as grandes emissoras transmitiam boletins noturnos, a CNN estava ao vivo de Bagdá, 24 horas por dia, com repórteres sob bombas relatando em tempo real o que estava acontecendo. O mundo inteiro assistia. De repente, a “Notícias de Galinhada” havia se tornado a fonte de notícias mais importante do planeta. Consequentemente, ninguém mais chamou a CNN por aquele apelido.
A maior venda — e a maior perda — da vida
Em 1996, Turner fez o que todo fundador sonha e teme ao mesmo tempo: vendeu. A Time Warner comprou seu conglomerado — CNN, TNT, Cartoon Network, TCM e tudo mais — por US$ 7,5 bilhões (cerca de R$ 37 bilhões). Turner tornou-se vice-presidente da nova empresa e seu maior acionista individual. Parecia o final perfeito para uma história improvável.
Não era. Em 2000, a Time Warner concordou em ser comprada pela AOL, a gigante da internet que naquele momento parecia o futuro de tudo. Turner apoiou a fusão. No ano seguinte, a bolha da internet estourou, a AOL perdeu dois terços do seu valor e a nova AOL Time Warner registrou um prejuízo histórico de US$ 99 bilhões — a maior perda corporativa anual da história americana até então. A fatia de Turner, composta principalmente por ações da empresa, evaporou. Ele perdeu cerca de US$ 7 bilhões em três anos.
O que sobrou — e o que ele fez com isso
Perder US$ 7 bilhões seria o fim da história para a maioria das pessoas. Para Turner, foi o começo de um capítulo diferente. Afinal, mesmo depois do desastre da AOL, ele ainda era bilionário — “mas por pouco”, como ele mesmo admitia com o humor seco que sempre o caracterizou.
Dessa forma, Turner fez o que sempre fez quando perdia algo: foi em frente. Tornou-se o segundo maior proprietário individual de terras da América do Norte, com 2 milhões de acres distribuídos em 28 propriedades nos Estados Unidos e na Argentina. Abriu uma rede de restaurantes, a Ted’s Montana Grill, com mais de 40 unidades em 16 estados. E honrou a promessa mais generosa de sua vida: em 1997, havia comprometido US$ 1 bilhão para as Nações Unidas — e pagou o último centavo em 2015, mesmo com a fortuna reduzida. Em 2012, assinou o Giving Pledge, o pacto de Warren Buffett e Bill Gates pelo qual bilionários se comprometem a doar a maior parte da fortuna após a morte.
Além disso, Turner tinha outra obsessão que poucos associavam ao fundador da CNN: a natureza. Ele foi um dos principais responsáveis pela reintrodução do bisão americano no oeste do país. Criou o Capitão Planeta, desenho animado sobre meio ambiente que marcou gerações de crianças nos anos 1990. E passou os últimos anos de vida cercado de animais em suas fazendas, longe das redações e das salas de reunião onde havia construído e perdido tudo.
Em 2018, revelou que lutava contra demência por corpos de Lewy, doença neurodegenerativa progressiva. Morreu na quarta-feira, 6 de maio de 2026, aos 87 anos, cercado pela família. Deixa cinco filhos, 14 netos, dois bisnetos — e uma rede de notícias que ainda está no ar, transmitindo ininterruptamente, exatamente como ele prometeu em 1980.
Há uma frase que Turner repetia com frequência e que resume melhor do que qualquer balanço financeiro o que foi sua vida: “Se eu tivesse um pouco de humildade, seria perfeito.” Era uma piada. Mas como toda boa piada, tinha uma verdade dentro.
Turner construiu um império partindo de uma empresa de outdoors avaliada em US$ 1 milhão — e vendeu esse mesmo império por US$ 7,5 bilhões. Perdeu US$ 7 bilhões numa única fusão mal calculada. Doou US$ 1 bilhão para as Nações Unidas. Morreu com US$ 2,8 bilhões no bolso e 2 milhões de acres no nome.
Mas o que nenhum número captura é o que ele de fato construiu: a ideia de que notícias podiam — e deviam — ser contadas sem parar, sem intervalo, sem esperar o noticiário das 18h30. Essa ideia, que em 1980 parecia absurda, hoje é o padrão de tudo que você consome em tempo real — de portais de notícias a redes sociais. Ted Turner inventou o mundo em que você está lendo esse texto agora.
💬 Você cresceu assistindo à CNN ou aos canais que Turner criou? Qual foi o impacto dele na sua vida, mesmo que você nunca tenha percebido? Conta nos comentários.
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