Podpah vale mais que muita emissora no Brasil

Foto: Rede Social

Dois caras da internet que apostaram numa conversa em 2020 e construíram, em cinco anos, um dos maiores grupos de mídia independente do Brasil — sem sócio bilionário, sem herança e sem Globo.

Maio de 2026

Faturamento 2021
R$ 5,5 milhões
Meta 2026
R$ 100 milhões
Investimento na sede
R$ 9 milhões
Tamanho da nova sede
6.500 m²

Todo mundo conhece o Podpah. Quase ninguém sabe o tamanho real do negócio que está por trás. Parece só uma conversa entre dois amigos. Na prática, não.

Se você perguntasse para Igor Cavalari — o Igão — em 2020 quanto ele esperava ganhar com o Podpah, a resposta seria desarmante: “Se desse 50 mil views por episódio e uns dois mil reais para cada um já estava bom.” Essa frase, dita pelo próprio Mítico à revista Exame, resume o ponto de partida de uma história que desafia qualquer lógica de negócio convencional.

O que eles estavam criando num estúdio improvisado, com cinco pessoas e câmeras modestas, durante a pandemia de covid-19, não era apenas mais um podcast. Era, sem que soubessem, o embrião de um grupo de mídia que, em 2026, projeta faturar mais de R$ 100 milhões. Portanto, antes de falar nos números, é preciso entender o ponto de partida. Igão e Mítico não vieram de família rica. Não tinham padrinho no mercado publicitário, nem contrato com emissora, nem investidor esperando na fila. O que tinham era o dom de conversar — e a sensibilidade de perceber que o público brasileiro tinha fome de algo que parecesse real, sem roteiro engessado e sem frescura.

R$ 5,5 milhões em 2021. R$ 100 milhões em 2026. Isso tem nome: escala absurda.

O crescimento do Podpah não foi linear — foi uma explosão calculada. Em 2021, o grupo faturou R$ 5,5 milhões. No primeiro semestre de 2023 sozinho, segundo a Forbes Brasil, o faturamento bateu R$ 18,5 milhões — equivalente ao total de 2022 inteiro. Nesse sentido, o podcast havia dobrado de tamanho em menos de 12 meses, num mercado onde a maioria dos criadores de conteúdo luta para manter a audiência estável.

Para contextualizar: R$ 18,5 milhões em seis meses é mais do que muitas emissoras regionais de televisão faturam em um ano inteiro. Tudo isso gerado por um programa que, na tela, parece apenas dois amigos numa mesa com uma TV ao fundo. Em 2024, o grupo cresceu mais 30%. A meta para 2026, confirmada pelos fundadores e pelo CEO Victor Assis à Exame, é ultrapassar R$ 100 milhões de faturamento anual. Ou seja, em cinco anos, o Podpah multiplicou sua receita em aproximadamente 18 vezes. No mundo dos negócios, esse ritmo tem um nome: crescimento de startup de tecnologia. Só que aqui o produto é uma conversa.

Os episódios que colocaram o Podpah no mapa — e que nenhuma emissora teria feito

Parte do segredo do crescimento do Podpah está na lista de convidados que passaram pelo programa. Não é uma lista qualquer. Afinal, o programa recebeu Mano Brown num episódio que bateu recorde de visualizações simultâneas no Brasil — mais de 336 mil pessoas assistindo ao mesmo tempo, segundo o Estadão. Na sequência, recebeu o então ex-presidente Lula, que discutiu política, futebol e vida pessoal num tom que nenhuma entrevista jornalística convencional conseguiria replicar. Depois veio Neymar Jr., que bateu novo recorde de audiência. E Wagner Moura, numa conversa sobre cinema, cultura e política que gerou ampla repercussão.

Portanto, o Podpah não apenas entrevistou grandes nomes — construiu um formato capaz de fazer qualquer convidado baixar a guarda. Isso se provou ainda mais verdadeiro quando o programa começou a receber estrelas internacionais. Chris Hemsworth, o Thor da Marvel, veio ao estúdio durante a divulgação de Resgate 2 — e ganhou uma camisa do Corinthians e provou açaí pela primeira vez. Terry Crews, o icônico ator norte-americano, participou do episódio 934 e falou sobre infância difícil e superação. Justin Jefferson, estrela da NFL, gravou uma entrevista especial em Los Angeles. Harry Kirton, ator de Peaky Blinders, participou do episódio 491. E Max Verstappen e Sergio Pérez, da Red Bull Racing, apareceram no programa durante o Grande Prêmio de São Paulo — dois campeões mundiais de Fórmula 1 num podcast brasileiro feito por dois caras da internet.

Nenhuma emissora aberta do Brasil conseguiu reunir essa lista em cinco anos. O Podpah conseguiu — sem cachê de emissora, sem departamento de relações públicas gigante e, sobretudo, sem perder o tom que seus 60 milhões de espectadores mensais amam.

R$ 9 milhões do próprio bolso — e dois BMW X6 que somam R$ 1,5 milhão

Em agosto de 2025, o Grupo Podpah anunciou um investimento que marcou uma virada definitiva: R$ 9 milhões para construir uma nova sede de 6.500 metros quadrados na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo — dez vezes maior que o espaço anterior. O detalhe mais revelador não é o tamanho, mas a origem do capital. O investimento veio inteiramente do próprio bolso de Igão, Mítico e Victor Assis. Sem captação externa, sem fundo de investimento, sem diluição de participação. “Somos uma empresa independente, o que nos permite agir rápido. É um capital nosso pensado no presente e na marca para o futuro”, explicou o CEO ao Meio&Mensagem.

O novo complexo terá sete estúdios — um exclusivo para o Podpah Podcast, dois para música, um para videoclipes e três híbridos capazes de rodar até nove programas simultâneos. Sobretudo, o espaço concentrará todas as frentes do grupo: Podpah Produções, Podpah Records, Podpah Store, MadHouse TV e a agência de publicidade Black&Yellow, além de 200 estações de trabalho, galeria de arte urbana e nove camarins. É, em todos os sentidos, a sede de uma empresa de mídia — não de um podcast.

E os frutos dessa construção aparecem também na vida pessoal dos fundadores. Em outubro de 2022, Igão e Mítico compraram dois BMW X6 que somaram R$ 1,5 milhão, segundo o portal Auto Esporte. Dois caras que queriam R$ 2 mil por mês comprando um milhão e meio em carros juntos, três anos depois de começar. Não é ostentação — é o retrato fiel de uma trajetória que ninguém tinha no roteiro.

Não é só podcast: é um ecossistema de R$ 100 milhões

O erro mais comum de quem analisa o Podpah de fora é enxergar apenas o programa de entrevistas. Afinal, o podcast é o carro-chefe — não o negócio inteiro. O Grupo Podpah opera hoje em pelo menos cinco frentes simultâneas, cada uma com receita própria e estratégia independente.

A Podpah Records, lançada oficialmente em 2026 e detalhada ao portal Noize, é uma plataforma musical com grade própria, seis programas e oito patrocinadores fundadores — entre eles Red Bull, Fiat, Hellmann’s e Tok&Stok. A proposta é construir uma “Casa da Música” dentro do ecossistema, com artistas periféricos, funk, shows exclusivos e formatos inéditos. A MadHouse TV transmite a Kings League Brasil — torneio de futebol entre criadores de conteúdo que movimenta plateia física e digital. A agência Black&Yellow atende marcas externas ao grupo. A Podpah Store comercializa produtos da marca. Portanto, a meta de R$ 100 milhões não vem de um único produto — vem de um sistema inteiro funcionando em paralelo.

Nesse sentido, mais de 100 marcas já firmaram parceria com o grupo ao longo dos anos, e 22 mantêm contratos fixos. O exemplo mais recente e revelador é a Wizard by Pearson: a escola de idiomas montou duas salas temáticas dentro da própria sede do Podpah — uma para estudos, outra para jogos — e ainda oferece aulas de inglês presenciais para Igão e Mítico. A parceria começou em janeiro de 2025 com um episódio que superou 1 milhão de visualizações e evoluiu para um modelo 360 graus que combina presença física, conteúdo e ação social, segundo o Jornal de Brasília. Isso não é patrocínio. É integração de marca no nível mais profundo que existe.

Em 2020, quando o Podpah estreou, a expectativa era modesta: 50 mil visualizações e R$ 2 mil mensais para cada fundador já seriam suficientes. Três anos depois, o canal acumulava 800 milhões de visualizações no YouTube, 60 milhões de acessos mensais e uma lista de convidados que incluía Lula, Neymar, Chris Hemsworth, Max Verstappen e Terry Crews. A diferença entre a expectativa e a realidade é tão grande que nem os próprios criadores conseguem explicar completamente. “Era impossível imaginar que aquele convite para fazer um podcast viraria o que é o Podpah hoje”, disse o CEO Victor Assis à Exame.
Foto: Rede Social

Copa do Mundo, 200 funcionários e o maior passo ainda por vir

Atualmente o Grupo Podpah tem cerca de 100 funcionários — todos em regime 100% presencial. A meta é chegar a 200 contratações até o final de 2026, de forma gradual para preservar a cultura interna que os fundadores consideram inegociável. “Pessoas vêm antes do negócio”, diz o CEO Victor Assis. Casos como o de Thaizoca — que começou como produtora e virou apresentadora — e de Luana, que saiu do atendimento para a diretoria de marketing, mostram que a empresa aposta mais em potencial do que em currículo formal.

Para a Copa do Mundo de 2026, que acontece entre junho e julho no Canadá, Estados Unidos e México, toda a grade do grupo será adaptada ao tema. Conteúdos especiais, transmissões ao vivo e formatos inéditos estão programados. Afinal, Igão e Mítico cresceram falando de futebol — e a Copa é o maior palco que o esporte oferece. Para um grupo que já entrevistou Verstappen durante o GP de São Paulo, não é difícil imaginar que o Mundial trará nomes de peso ao estúdio.

Em contrapartida, o Podpah Podcast — o coração histórico de tudo — segue no ar com frequência reduzida. Os fundadores deixaram claro que não pretendem encerrar o programa. A lógica mudou: o podcast já não precisa sustentar sozinho a operação. É o símbolo da marca, a alma da comunidade — não o único produto. Nesse sentido, o que Igão e Mítico construíram vai muito além de um canal do YouTube. É uma empresa de mídia que cresceu 18 vezes em cinco anos, financiada com capital próprio, sem pedir licença para ninguém.

O que Igão e Mítico ensinaram sobre construir do zero

A história do Podpah é, antes de tudo, uma história sobre apostar em si mesmo quando ninguém pede. Em 2020, dois criadores de conteúdo decidiram fazer uma conversa num estúdio improvisado durante uma pandemia. Sem investidor, sem emissora, sem plano de negócios formal. Cinco anos depois, estão à frente de um grupo de mídia que projeta R$ 100 milhões em faturamento, com sede própria de 6.500 m², cinco unidades de negócio e 100 funcionários. O produto era uma conversa. O negócio virou um império — construído tijolo por tijolo, episódio por episódio, com capital próprio e sem pedir licença para ninguém.

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