Igor Figueiredo: o brasileiro que virou campeão mundial

O único brasileiro campeão mundial de snooker — e a história que ninguém conta.

20 de maio de 2026

O Esporte Que Poucos Conhecem — e Que Esse Brasileiro Dominou

Sinuca não é bilhar de bar. Quem já assistiu a uma partida de snooker profissional sabe: é outro planeta. A mesa tem quase quatro metros de comprimento, o feltro é verde e as regras exigem uma combinação rara de precisão cirúrgica, raciocínio estratégico e controle emocional que poucos seres humanos possuem. A pontuação máxima possível em uma única jogada contínua — chamada de “break” — é 147 pontos. São 36 tacadas perfeitas, sem errar uma sequer. Afinal, um único erro e o placar para.

O snooker é um esporte dominado há décadas por ingleses, irlandeses e escoceses. O circuito profissional mundial, chamado World Snooker Tour, reúne os cem melhores do planeta e é administrado pela WPBSA, em Londres. Ou seja: entrar nesse circuito já é uma raridade. Chegar ao top 65 do ranking mundial sendo brasileiro, sem patrocínio fixo, morando a dez mil quilômetros dos principais torneios — isso beira o impossível. Na prática, não.

O Garoto Carioca Que Só Conhecia Mesas de Dez Pés

Igor Almeida Figueiredo nasceu no Rio de Janeiro em 11 de outubro de 1977. Cresceu jogando sinuca no Brasil — mas em mesas de dez pés, bem menores que os doze pés padrão do snooker internacional. Portanto, quando ele entrou pela primeira vez no circuito amador internacional, em 2009, era tecnicamente um estrangeiro dentro do próprio esporte. As mesas eram maiores, as regras ligeiramente diferentes, e os adversários tinham anos de experiência em estruturas que ele nunca havia pisado.

Nesse sentido, o que Igor fez naquele ano de 2009 não tem explicação simples. Ele entrou no PIOS — o circuito amador internacional — e terminou em 12º lugar no ranking anual. Mais do que isso: chegou à final do Campeonato Mundial da IBSF, o mundial de amadores do snooker, e perdeu apenas por 10 a 8 para o experiente Alfie Burden, inglês de longa carreira. O resultado foi bom o suficiente para que a WPBSA lhe concedesse um wild card — um convite direto — para o World Snooker Tour profissional a partir de 2010. Sobretudo, foi a primeira vez na história que um brasileiro chegava àquele nível.

Ranking mais alto
65º do mundo
Títulos mundiais
1 (2024)
Prêmio pelo título
£22.000 (~R$ 148 mil)
Anos no tour principal
4 temporadas

Ranking 65 do Mundo — Sem Dinheiro Para Jogar

A temporada 2010-2011 foi promissora. Igor chegou ao ranking 65 do mundo — seu melhor resultado histórico — e mostrou que tinha qualidade para competir com os melhores. Em seu primeiro torneio profissional já venceu duas partidas consecutivas. No Shanghai Masters, eliminou dois adversários de forma convincente, com um jogo que chamou atenção dos comentaristas britânicos pelo controle técnico incomum para um estreante. Afinal, naquele nível, qualquer vacilo é punição imediata.

O problema nunca foi o talento. Foi o dinheiro. O circuito profissional de snooker é disputado quase inteiro no Reino Unido e na Europa. Passagens aéreas, hospedagem, inscrições em torneios, equipamentos, treinamentos — tudo custa. E o Brasil, à época, não tinha estrutura de patrocínio para esportes de nicho como o snooker. Em contrapartida, sem patrocínio, Igor só conseguia entrar em um ou dois torneios por temporada. Nesse sentido, a temporada 2012-2013 foi emblemática: ele voltou ao tour, mas sem recursos suficientes, ficou de fora de praticamente toda a temporada e entrou apenas no qualifying do Campeonato Mundial.

Em uma das temporadas, Igor foi desclassificado em um torneio internacional por esquecer o próprio taco em casa — e mesmo assim venceu o frame seguinte com o taco emprestado. A precisão técnica estava lá. O que faltava era o básico: dinheiro para estar presente.
Foto Rede Social: @snooker_portugal / @igorsnooker

A Última Chance — e a Relegação Que Ninguém Esperava

A temporada 2016-2017 foi, curiosamente, sua melhor no tour principal. Igor chegou às últimas 16 posições em dois torneios de ranking diferentes: o Welsh Open e o Gibraltar Open. No Welsh Open, eliminou três adversários consecutivos — incluindo Alfie Burden, o mesmo inglês que havia vencido a final do Mundial amador em 2009 — antes de perder para Stuart Carrington. Portanto, havia capacidade. Havia resultado concreto.

Mas ao final da temporada, com o ranking 111 no mundo, Igor foi relegado do tour. Fora do top 100, a WPBSA não renova o cartão profissional. Ele voltou ao Brasil. Passou a dar aulas de sinuca em São Paulo — cobrava R$ 100 por hora em aulas individuais e R$ 300 por cabeça em clínicas coletivas. Era com isso que pagava as contas. O homem que havia sido top 65 do mundo, que havia disputado qualifyings do Campeonato Mundial contra jogadores do top 20, estava agora ensinando posicionamento de taco para iniciantes. A ironia não é cruel. É apenas honesta.

A Volta Mais Improvável do Snooker Brasileiro

Em maio de 2024, Igor Figueiredo voltou ao Crucible Theatre, em Sheffield — o mesmo palco onde Ronnie O’Sullivan fez o break perfeito em 5 minutos, onde Judd Trump ganhou seu único título mundial. Não como qualificado às pressas ou como convidado de cortesia. Voltou como campeão pan-americano sênior, classificado por mérito, com 46 anos, após ter eliminado nas fases anteriores adversários com histórico de títulos mundiais profissionais.

No caminho até a final, Igor despachou a campeã mundial feminina sênior Tessa Davidson, depois varreu o quatro vezes campeão Jimmy White por 3 a 0 — resultado que, na linguagem do snooker, chama-se “whitewash”. Na semifinal, venceu Tony Drago por 4 a 1, compilando breaks de 57, 110 e 119 nos três últimos frames seguidos. Na final, enfrentou Ken Doherty — campeão mundial profissional em 1997, irlandês experiente, favorito para muitos. Igor venceu por 5 a 2, com um break de 88 no frame decisivo. Afinal, o favorito às vezes perde para quem passou anos esperando.

Ao levantar o troféu, disse apenas: “I don’t have the words for this moment — I’m still sleeping or dreaming.” Traduzindo: depois de anos dando aulas a R$ 100 a hora, o Crucible parecia mesmo um sonho que ele próprio devia ter deixado de acreditar em algum momento.

£22 Mil, Dois Títulos e Uma Carta Profissional de Volta no Bolso

O prêmio pelo título mundial: £20.000 — cerca de R$ 134.000 na cotação atual — mais £2.000 pelo break mais alto do torneio. Não são os R$ 67 milhões de Judd Trump nem os R$ 100 milhões de Ronnie O’Sullivan. Portanto, comparar seria injusto. O que vale registrar é o contexto: para um atleta que sobrevivia de aulas individuais, aquele cheque representou mais do que o número. Representou a prova de que o investimento — em tempo, em dedicação, em anos longe do holofote — tinha valido.

Em setembro de 2024, Igor voltou a vencer. Derrotou Jimmy White por 2 a 1 na final do Mr Vegas World Seniors Snooker 900, em Hull, transmitido ao vivo pelo Channel 5 no Reino Unido. Dois títulos internacionais em quatro meses, ambos televisionados, ambos com adversários de peso. Ou seja: não foi sorte de um torneio. Foi consistência.

2025: O Retorno Definitivo ao Tour Principal

A história não parou em 2024. Em setembro de 2025, Igor venceu o Pan American Open Snooker Championship em Sacramento, nos Estados Unidos, derrotando o compatriota Fabio Anderson Luerson por 5 a 2 na final. O resultado, confirmado pela WPBSA, garantiu a ele um cartão profissional de dois anos para as temporadas 2026-2027 e 2027-2028. Sobretudo, é o mesmo circuito do qual ele havia saído por falta de patrocínio, quase dez anos antes.

Nesse sentido, é um arco narrativo que poucos atletas conseguem construir. Não foi uma aposentadoria honrosa. Não foi um retiro digno. Foi uma volta. Com título mundial na bagagem, com dois títulos consecutivos no currículo, com 48 anos e um cartão profissional válido. Em contrapartida, os rivais que ele vai enfrentar no tour principal têm estruturas de treino, patrocínio e comissões inteiras por trás. Igor tem o taco, a experiência — e, agora, pelo menos o ingresso garantido para o jogo.

O que Igor Figueiredo ensina sobre talento e dinheiro

Raramente a equação fica tão visível. Igor tinha talento para estar no top 65 do mundo — e ficou de fora do tour por falta de dinheiro para comprar passagem aérea. O snooker não paga salário fixo: você compete, você ganha. Se não há patrocinador, não há competição. Por anos, ele sobreviveu ensinando o que sabia a quem queria aprender. Depois voltou ao mesmo palco onde os maiores do mundo jogam — e venceu. O cheque do título não transformou sua fortuna. O que transformou foi o fato de que ele nunca parou de jogar.

💬 Você sabia que o único brasileiro campeão mundial de snooker ficou fora do circuito por falta de patrocínio — e voltou para ganhar o título aos 46 anos? Deixa nos comentários o que você achou dessa história.

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