Meryl Streep poderia ter exigido mais. Escolheu não fazê-lo — e usou esse poder para garantir que Anne Hathaway e Emily Blunt recebessem exatamente o mesmo que ela: US$ 12,5 milhões cada.
Hollywood tem uma regra não escrita: quem vale mais, leva mais. Desta vez, não.
Existe uma hierarquia muito clara em Hollywood. Estrelas maiores recebem mais. Muito mais. É assim desde que Mary Pickford negociou 50% dos lucros dos seus filmes nos anos 1920 — e é assim até hoje, quando Tom Cruise embolsou US$ 100 milhões sozinho com Top Gun: Maverick.
Portanto, quando a revista Variety revelou os bastidores financeiros de O Diabo Veste Prada 2, a primeira reação foi de surpresa. Meryl Streep — a atriz mais indicada ao Oscar da história, com 21 nomeações e três estatuetas — abriu mão de cobrar mais. E foi além: exigiu que suas colegas de elenco recebessem exatamente o mesmo que ela.
Cada uma levou US$ 12,5 milhões — cerca de R$ 61,5 milhões. E isso, no mundo de Hollywood, é quase uma revolução silenciosa.
O filme que quase não existiu — e o valor que fez acontecer
O primeiro O Diabo Veste Prada foi lançado em 2006 com um orçamento de US$ 35 milhões. Arrecadou US$ 326 milhões pelo mundo inteiro. Nesse sentido, o estúdio 20th Century Studios tinha todos os motivos do mundo para querer uma continuação. O problema era simples: sem Meryl Streep, não havia filme.
Afinal, Miranda Priestly — a editora de moda glacial, cruel e absolutamente magnética que ela interpretou — é o tipo de personagem que não funciona com outra atriz. O estúdio sabia disso. Streep também sabia.
Portanto, a produtora apresentou à atriz uma proposta descrita pela Variety como “condizente com seu prestígio e valor de mercado”. Fontes ouvidas pela publicação afirmam que Streep poderia ter exigido um valor maior — e teria conseguido. Ou seja, US$ 12,5 milhões não é o teto que ela poderia alcançar. É o valor que ela escolheu aceitar, mediante uma condição: que Anne Hathaway e Emily Blunt recebessem o mesmo.
O filme custou US$ 100 milhões para ser produzido. Segundo o diretor David Frankel em entrevistas anteriores, boa parte desse orçamento foi destinada justamente ao elenco principal.

O que é o “favored nations” — a cláusula que ninguém explica direito
Para entender o que Streep fez, é preciso entender o mecanismo que ela usou. O “favored nations” — traduzido livremente como “nação mais favorecida” — é uma cláusula contratual que garante condições iguais entre partes determinadas de um acordo. No cinema, funciona assim: quando uma estrela negocia um contrato com essa cláusula, o estúdio é obrigado a oferecer as mesmas condições financeiras a outros membros do elenco especificados no documento.
Sobretudo, o que torna essa cláusula rara é o fato de que ela precisa ser ativada por quem tem poder de negociação — e esse poder quase sempre pertence a quem já está no topo. Ou seja, a igualdade só acontece quando a estrela maior decide usá-la.
Streep não apenas usou. Segundo a Variety, ela fez questão de incluir a cláusula como condição para assinar o contrato. Em contrapartida, não há registro de que Hathaway ou Blunt tenham solicitado isso. A iniciativa partiu de quem menos precisava dela.
Um gesto raro numa indústria marcada pela desigualdade
A desigualdade salarial em Hollywood é estrutural e bem documentada. Na lista dos dez atores mais bem pagos de 2024, havia apenas uma mulher entre os dez primeiros nomes. Afinal, historicamente, atrizes recebem menos que seus pares masculinos em produções equivalentes.
Portanto, o gesto de Streep tem um peso que vai além da generosidade pessoal. É uma atriz no pico do seu poder de negociação usando esse poder para nivelar — ao menos entre as três — uma indústria que raramente se nivela por cima.
R$ 61 milhões é muito — mas pode ser só o começo
O cachê base de US$ 12,5 milhões por si só já coloca as três atrizes entre as mais bem pagas do cinema mundial neste ano. Para ter uma ideia de escala: em 2015, Meryl Streep recebeu entre US$ 5 milhões e US$ 20 milhões pelo filme Ricki and the Flash, segundo o Hollywood Reporter. O Prada 2 está na faixa mais alta que ela já negociou como valor fixo declarado.
Contudo, o número pode crescer bastante. O trio também negociou participação nos lucros de bilheteria — bônus vinculados ao desempenho comercial do longa. Segundo duas fontes ouvidas pela Variety, esses pagamentos extras já começaram a ser acionados.
Se o sucesso continuar, cada uma pode ultrapassar US$ 20 milhões em ganhos totais — o equivalente a R$ 98 milhões. Nesse sentido, o filme já superou US$ 300 milhões nas bilheterias globais e disputa a liderança de fim de semana com Mortal Kombat II. Os bônus, portanto, são mais do que uma possibilidade.

O que Meryl Streep vale — e por que esse número importa
Streep acumula 21 indicações ao Oscar — mais do que qualquer outro ator ou atriz da história — e venceu três vezes: por Kramer vs. Kramer (1979), A Escolha de Sofia (1982) e A Dama de Ferro (2011). Soma ainda nove Globos de Ouro em 33 indicações. Afinal, esses números não são apenas troféus. Eles são o argumento de negociação que sustenta cada vírgula do contrato que ela assina.
O patrimônio estimado da atriz gira em torno de US$ 275 milhões — construído ao longo de cinco décadas entre salários, participação em lucros e investimentos. Portanto, os US$ 12,5 milhões do Prada 2 não vão transformar sua vida financeira.
O que importa aqui é outro tipo de conta: a de quantas atrizes, ao longo da história de Hollywood, poderiam ter feito o mesmo — e não fizeram.
Você acha que mais estrelas deveriam usar esse poder para nivelar os salários no cinema? 🎬
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