O Segredo por Trás das Casas de Research que Movem Bilhões

Em menos de dez anos, um mercado que mal existia chegou a 5,5 milhões de investidores — e as casas de research estão no centro disso tudo.

Fator Bilhão, maio de 2025 · Fontes: B3, Brazil Journal, NeoFeed, CVM, APIMEC Brasil

Uma indústria construída sobre uma pergunta simples

Existe uma pergunta que, num determinado momento, passou a assombrar milhões de brasileiros ao mesmo tempo: “E agora, onde coloco meu dinheiro?”

Não foi uma pergunta filosófica. Foi prática, urgente e, em muitos casos, angustiante. Porque entre 2017 e 2021, os juros caíram tanto no Brasil que a poupança — aquele refúgio de gerações inteiras — passou a render menos do que a inflação. Guardar dinheiro no banco virou, na prática, perder dinheiro devagar.

Foi nesse vácuo que as casas de research encontraram seu momento. Afinal, quando 5,5 milhões de pessoas entram numa bolsa de valores sem saber exatamente o que estão fazendo, alguém precisa explicar. E quem chegou primeiro, explicou melhor e cobrou por isso construiu um negócio que poucos previram — e que hoje vale fortunas.

Portanto, entender esse mercado não é apenas curiosidade econômica. É entender uma das transformações mais silenciosas e relevantes do sistema financeiro brasileiro nas últimas duas décadas.

Investidores na B3 (2025)
5,5 milhões
Custódia em renda variável
R$ 635 bilhões
Crescimento da base (2018–2025)
+800%
Assinantes Suno Research
100 mil+

O que é uma casa de research, explicado para quem nunca ouviu falar

Imagine que você quer investir em ações, mas não tem tempo — nem paciência — para ler balanços de empresas, interpretar resultados trimestrais e acompanhar o humor do mercado toda semana. É um trabalho de tempo integral. E a maioria das pessoas tem outras coisas para fazer.

É aí que entra a casa de research.

Tecnicamente, é uma empresa credenciada pela CVM — a Comissão de Valores Mobiliários, o órgão regulador do mercado financeiro brasileiro — para emitir recomendações formais de investimento. Os analistas precisam ter a certificação CNPI, emitida pela APIMEC, e seguem regras claras sobre o que podem e o que não podem afirmar nos relatórios.

Na prática, o modelo é mais direto: você paga uma assinatura mensal ou anual e recebe, em troca, uma lista de ações recomendadas, análises em linguagem acessível, alertas de compra e venda, e acesso a uma equipe de especialistas. É como contratar um analista particular — só que dividindo o custo com outros milhares de assinantes.

Nesse sentido, o produto principal não é o relatório. É a confiança. A confiança de que alguém competente, com tempo e acesso às informações certas, está olhando pelo seu patrimônio enquanto você vive a sua vida. E foi justamente isso que tornou o modelo tão escalável — e tão valioso.

Os números que explicam por que esse mercado explodiu

Para entender a escala do que aconteceu, é preciso olhar um número específico: em 2018, a B3 tinha pouco mais de 600 mil investidores pessoas físicas com posições em renda variável. No início de 2024, esse número já passava de 5,1 milhões. Em 2025, chegou a 5,5 milhões — com mais de R$ 635 bilhões sob custódia.

Ou seja, em menos de sete anos, a bolsa brasileira ganhou quase 5 milhões de novos investidores. Uma geração inteira descobriu o mercado financeiro ao mesmo tempo — e a maioria desses novos entrantes nunca havia comprado uma ação na vida.

Portanto, a demanda por orientação era enorme. As casas de research estavam posicionadas exatamente no lugar certo, na hora certa, com o produto certo. Sobretudo com um modelo de negócio que escalava com eficiência: o mesmo relatório enviado para mil assinantes ou para cem mil assinantes custa praticamente o mesmo para produzir.

Em contrapartida, o desafio era conquistar confiança num mercado onde a maioria das pessoas nunca havia sequer ouvido o termo “research”. E foi aí que cada casa encontrou seu caminho — às vezes de formas muito diferentes entre si.

A Suno e o caminho que ninguém esperava

Em 2016, Tiago Reis fundou a Suno Research com uma proposta que, na época, parecia modesta: democratizar o acesso à análise fundamentalista de qualidade. Sem promessas de enriquecimento rápido. Sem personagens. Sem urgência artificial. O começo foi produzindo conteúdo gratuito — artigos, análises, vídeos — e esperando que o público chegasse naturalmente.

A primeira venda foi confirmada assim que o produto ficou disponível.

Aquilo dizia algo importante sobre o mercado. Havia demanda reprimida — investidores dispostos a pagar por análise séria, sem exageros. Nesse sentido, a Suno cresceu num ritmo que impressionou até quem acompanhava de perto: a receita dobrava ano após ano, e a base chegou a 100 mil assinantes, com uma audiência total que ultrapassava 12 milhões de pessoas e 6 milhões de seguidores em redes sociais.

O modelo da Suno foi muito além do relatório. Com o tempo, o grupo adquiriu o Status Invest — um dos maiores consolidadores de carteiras do Brasil —, os portais Fiis.com.br e FundsExplorer.com.br, criou uma gestora de ativos e lançou uma assessoria de investimentos vinculada à XP. A casa de análise virou um ecossistema completo. E o ecossistema atraiu a atenção de um dos maiores grupos financeiros do país.

Em 2022, a XP comprou uma participação minoritária relevante no Grupo Suno. A parceria abriu acesso a mais de 700 escritórios de agentes autônomos e a uma base de 3,3 milhões de clientes. Para quem começou produzindo artigos gratuitos sobre dividendos, isso representa uma escala que vai muito além do que qualquer relatório poderia alcançar sozinho.

Ao mesmo tempo, a Suno adquiriu a Eleven Financial, uma das maiores casas de análise focadas no mercado institucional. Com isso, passou a atender tanto o investidor pessoa física quanto bancos, gestoras e family offices — os dois lados do mercado, com marcas distintas e equipes separadas.

O setor que se consolidou mais rápido do que ninguém esperava

A trajetória da Suno não é um caso isolado. Em paralelo, o mercado de research como um todo viveu uma onda de consolidação que reconfigurou o setor inteiro em poucos anos.

O BTG Pactual — o maior banco de investimentos da América Latina — comprou o Grupo Universa em 2021, que reunia a Empiricus, a gestora Vitreo e os portais Seu Dinheiro e Money Times. O negócio inicial foi de R$ 690 milhões à vista, com um earn-out que pode elevar o total para mais de R$ 2 bilhões. A mensagem enviada ao mercado foi direta: uma empresa que vende relatórios financeiros pode valer tanto quanto uma fintech de primeira linha.

A Nord Research, fundada em 2018 por cinco ex-analistas, seguiu caminho diferente. Optou por manter a independência, diversificou para o wealth management e chegou a R$ 3 bilhões sob consultoria — construindo um negócio robusto sem precisar se associar a um grande grupo financeiro.

Portanto, o mercado mostrou que havia mais de um modelo para prosperar. O que todas as casas tinham em comum era a mesma percepção original: o investidor brasileiro precisava de orientação, estava disposto a pagar por ela, e a tecnologia digital permitia entregar esse serviço em escala com custo marginal próximo de zero.

O número mais revelador sobre esse setor não está nos balanços das casas de research — está na B3. Em 2025, o Brasil tinha 5,5 milhões de investidores em renda variável e R$ 635 bilhões sob custódia. Mas o saldo mediano por investidor ainda é pequeno. O grande desafio das casas de research não é mais atrair novos assinantes. É acompanhar o crescimento patrimonial deles ao longo do tempo. Quem conseguir fazer isso vai construir o maior negócio do setor.

O modelo que vai muito além da assinatura

Uma das evoluções mais relevantes desse mercado é o que acontece depois da assinatura. As casas de research perceberam que tinham em mãos algo que vai além do conteúdo: uma relação de confiança construída ao longo de meses — às vezes anos — com cada assinante.

Um investidor que lê os relatórios de uma casa, segue as recomendações, participa das lives e usa as ferramentas da plataforma é um investidor que já confia naquela marca. E confiança, no mercado financeiro, é o ativo mais difícil de construir — e o mais valioso quando existe.

Nesse sentido, a transição natural foi para serviços de maior valor agregado: gestão de patrimônio, assessoria de investimentos, fundos próprios. A Suno identificou que sua base de assinantes tinha, em média, R$ 200 mil para investir — o que representa um potencial de R$ 20 bilhões a serem capturados pela assessoria. Ou seja, o research foi a porta de entrada. O que veio depois é o negócio real.

Sobretudo, esse movimento transformou as casas de research de empresas de conteúdo em empresas de serviços financeiros completos. O relatório deixou de ser o produto final e passou a ser o começo de uma jornada do cliente — mais longa, mais lucrativa e, do ponto de vista da casa, muito mais difícil de ser substituída pela concorrência.

A regulamentação que molda tudo por baixo

Todo esse crescimento acontece dentro de um quadro regulatório específico. A CVM estabelece as regras do jogo pela Resolução CVM 20/2021, atualizada em 2023 e 2024. A APIMEC supervisiona os analistas certificados. E as casas precisam navegar esse ambiente com cuidado.

Para emitir recomendações formais — dizer “compre X” ou “venda Y” — uma casa de research precisa ter analistas com certificação CNPI, estar credenciada como pessoa jurídica analista e seguir regras claras de gestão de conflitos de interesses e transparência nos relatórios. Isso cria uma barreira de entrada real: não é qualquer um que abre uma casa de research do dia para a noite.

Portanto, as empresas que já operam nesse mercado com credencial sólida têm uma vantagem competitiva que não é fácil de replicar. Em contrapartida, o crescimento dos influenciadores financeiros colocou novos desafios regulatórios na mesa. A própria resolução da CVM estabelece que vídeos e apresentações com conteúdo equivalente ao de uma recomendação de investimento estão sujeitos às mesmas regras dos relatórios escritos.

O que esse mercado diz sobre o Brasil que está chegando

Existe algo genuinamente inédito no que aconteceu com o mercado de research brasileiro. Uma geração inteira de investidores surgiu praticamente do zero, em poucos anos — e uma indústria inteira nasceu para servi-la.

As casas de research não criaram essa demanda. Mas souberam responder a ela com agilidade, escala e, nos melhores casos, com análise de qualidade real. O resultado foi um setor que hoje movimenta bilhões, atrai os maiores grupos financeiros do país e continua crescendo.

Afinal, enquanto houver novos investidores chegando ao mercado sem saber exatamente o que fazer — e os dados da B3 indicam que eles continuarão chegando — haverá espaço para quem consegue explicar o mercado com clareza, consistência e credibilidade. Nesse sentido, o maior ativo de uma casa de research nunca foi o relatório. Foi sempre a confiança de quem o lê.

O que fica dessa história toda

As casas de research fizeram algo que poucos setores conseguem: democratizaram o acesso à análise financeira profissional. Um investidor pessoa física hoje tem acesso a relatórios que, décadas atrás, eram exclusivos de grandes instituições. Isso é real, concreto e relevante.

Ao mesmo tempo, o verdadeiro negócio sempre foi a confiança — construída relatório a relatório, análise a análise, ao longo de anos. Quem entende isso não vê mais uma casa de research como uma empresa de conteúdo. Vê como uma empresa de relacionamento. E relacionamento, no mercado financeiro, é o que separa os que ficam dos que somem na próxima virada de ciclo.

Você já é assinante de alguma casa de research? Conta aqui nos comentários qual faz parte da sua rotina de investimentos 💬

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