BlackBerry não é só um filme sobre tecnologia. É um manual de erros que qualquer empreendedor de sucesso vai reconhecer — e temer.

📷 BlackBerry (2023) — a história real que Hollywood nunca teria coragem de inventar. | Divulgação
Em 1996, dois nerds canadenses entraram numa sala de reunião sem gravata, sem PowerPoint e com um aparelho que parecia um controle remoto de TV com pretensões. O executivo do outro lado da mesa mal prestou atenção na apresentação. Disse apenas que precisavam trocar o nome. Saíram de lá sem o contrato, mas com algo mais valioso: o interesse de um homem que jogava no limite do sistema.
Esse encontro — real, documentado, quase cômico — é onde começa BlackBerry, o filme de 2023 dirigido por Matt Johnson que conta a história da ascensão e queda da Research In Motion (RIM), empresa canadense criadora do smartphone mais poderoso do início dos anos 2000. O aparelho que Barack Obama se recusava a largar. O dispositivo que executivos de Wall Street usavam como símbolo de status. O telefone que ganhou o apelido de “CrackBerry” — porque viciar, viciava mesmo.
E que foi varrido do mapa em menos de uma década.
Sinopse oficial
O que os bilionários enxergariam nesse filme que você provavelmente vai perder
A maioria das pessoas assiste a BlackBerry como um thriller de negócios. Acompanha a ascensão, sente a emoção, sofre com a queda e vai dormir. Mas quem já construiu algo de verdade — ou está tentando — assiste a esse filme com um nó no estômago. Porque reconhece os erros. Um por um.
Mike Lazaridis era um gênio de produto. Sabia exatamente o que as pessoas precisavam — antes de elas saberem. Era o tipo de fundador que dorme pensando em eficiência de bateria e acorda com soluções para problemas que o mercado ainda nem identificou. Jim Balsillie era o oposto: agressivo, calculista, disposto a hipotecar a própria casa para fechar um deal. Juntos, criaram algo que o mundo nunca tinha visto. Separados em suas obsessões, destruíram o que construíram.
“Dois gênios que não se entendiam construíram o maior smartphone do mundo. E foi exatamente por não se entenderem que o perderam.”
Isso não é roteiro de Hollywood. É o padrão mais repetido na história dos negócios.
Três lições que qualquer pessoa séria tira desse filme
1. Inovar não é suficiente — você precisa continuar inovando. A RIM inventou o smartphone. Literalmente. Mas quando o iPhone chegou em 2007, a empresa não enxergou o perigo — enxergou uma moda passageira. Lazaridis chegou a declarar que tela touchscreen nunca substituiria o teclado físico. Steve Jobs, enquanto isso, reinventava o conceito inteiro de comunicação. O criador original ficou preso à sua própria criação.
Jeff Bezos tem um princípio que chama de “Day 1” — o dia em que a empresa age como se ainda estivesse começando, com a fome e a paranoia de uma startup. Quando uma empresa começa a agir como se fosse “Day 2” (acomodada, burocrática, certa de si), segundo Bezos, a morte já está agendada. A RIM era, no auge, a personificação do Day 2.
2. Ego é o inimigo mais caro que uma empresa pode ter. Balsillie estava obcecado em comprar um time da NHL — o Pittsburgh Penguins — enquanto o iPhone destruía a participação de mercado da RIM. Literalmente. Havia reuniões críticas marcadas com a AT&T enquanto ele negociava compra de franquia de hóquei. O filme não inventa isso. Aconteceu. E custou bilhões.
Warren Buffett diz que sua maior vantagem é saber exatamente o que ele não sabe. Balsillie não tinha esse filtro. Acreditava que podia tocar tudo ao mesmo tempo — e errou em tudo ao mesmo tempo.
3. A cultura da empresa é o produto mais frágil que existe. Doug Fregin — o terceiro fundador, o mais esquecido, o mais humano dos três — construiu uma cultura de trabalho criativa, descontraída, quase utópica dentro da RIM. Era o tipo de ambiente onde engenheiros chegavam de patins e resolviam problemas impossíveis porque queriam, não porque eram obrigados. Quando Balsillie trouxe gestores corporativos para “profissionalizar” a empresa, essa cultura morreu. E com ela, foi embora a energia que fazia o produto ser bom.
Steve Jobs dizia que contratar pessoas medíocres cria um efeito cascata — a mediocridade atrai mais mediocridade. O oposto também é verdade: uma cultura forte atrai talentos excepcionais. Quando a RIM perdeu sua alma, perdeu seus melhores engenheiros. E sem engenheiros excepcionais, um produto de tecnologia é só uma caixinha de plástico.

📷 A cena mais perturbadora do filme: o momento em que Mike Lazaridis vê o iPhone de Steve Jobs pela primeira vez. | Divulgação
Por que você deve assistir a esse filme este final de semana
BlackBerry não é um filme sobre fracasso. É um filme sobre o momento exato — aquele instante preciso — em que as pessoas certas deixam de fazer as perguntas certas. É sobre o que acontece quando o sucesso anestesia a paranoia saudável que todo empreendedor precisa cultivar para sobreviver.
No pico, o BlackBerry tinha 45% do mercado mundial de smartphones. O presidente dos Estados Unidos não largava o aparelho. Bancos, governos, executivos do mundo inteiro dependiam dele. Em menos de dez anos, a empresa virou estudo de caso de gestão — do tipo que se usa para explicar o que não fazer.
Se você está construindo algo agora — um negócio, uma carreira, um projeto — esse filme é um espelho. E o que ele reflete, às vezes, não é agradável de encarar. Mas é exatamente por isso que vale a pena assistir.
Disponível no streaming. 121 minutos. 98% no Rotten Tomatoes. Sem desculpa para não assistir.
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