Elas Chegaram: As Mulheres Que Invadiram o Clube Mais Fechado do Brasil em 2025

Pela primeira vez, mulheres chegam a 20% dos 300 brasileiros mais ricos da Forbes. Conheça quem são, de onde vem o dinheiro — e o que isso realmente significa.

25/04/2026  |  Dados: Forbes Brasil 2025, Oxfam, IBGE

Havia uma piada antiga nos corredores da Forbes que dizia que a lista dos bilionários brasileiros era tão masculina quanto a fila do banheiro num estádio de futebol. Não era muito elegante, mas era honesta.

Em 2025, a piada perdeu a graça.

Pela primeira vez na história do ranking, as mulheres chegaram a 20% dos 300 maiores bilionários do Brasil, segundo levantamento da Forbes Brasil. São 60 nomes femininos — doze a mais do que no ano anterior. Juntas, elas somam R$ 343,7 bilhões. É muito dinheiro. É também, convenhamos, apenas um quinto de um clube que tem 300 cadeiras. Mas é um começo. Ou pelo menos é o que parece.

Quem são essas mulheres? De onde veio o dinheiro? E o que essa “conquista” realmente diz sobre o Brasil?


Nº 1

Vicky Safra — a rainha discreta

Para entender Vicky Safra, é preciso viajar no tempo. Não até 2020, quando seu marido Joseph morreu. Não até 1969, quando ela se casou com ele aos 17 anos. É preciso ir até 1840, na cidade de Aleppo, na Síria, onde uma família de nome Safra começava a financiar caravanas de comerciantes que cruzavam o Oriente Médio montados em camelos.

A fortuna que hoje carrega o sobrenome de Vicky tem suas raízes nessa Síria do século XIX, onde a família fundou um banco para fazer câmbio entre moedas de países da Ásia, África e Europa, além de comercializar prata e ouro. O empreendimento foi crescendo, abrindo filiais em Istambul e Alexandria. Quando o Império Otomano — o grande bloco de poder que controlou boa parte do Oriente Médio por séculos — começou a desmoronar, a família mudou de endereço. Foram para Beirute. Depois para o Brasil.

Em 1953, Jacob Safra desembarcou por aqui atraído pelas oportunidades do pós-guerra e fundou a Safra Importação e Comércio. O banco viria mais tarde — em 1972 — mas a semente já estava plantada.

Vicky nasceu na Grécia, veio morar no Brasil, e conheceu Joseph Safra numa época em que ele ainda era apenas o filho talentoso de um banqueiro libanês. Joseph diria, anos depois, que foi amor à primeira vista, um amor que duraria até o último momento de vida. Tiveram quatro filhos: Jacob, Esther, Alberto e David.

Joseph foi o mais rico banqueiro do mundo. Construiu um império avaliado em US$ 22,8 bilhões. Em dezembro de 2020, morreu. E Vicky, que sempre viveu na sombra discreta do marido, herdou metade de tudo aquilo.

Hoje, com 72 anos, morando em Genebra, na Suíça, ela lidera a lista das mulheres mais ricas do Brasil com patrimônio estimado em R$ 120,5 bilhões. É a segunda pessoa mais rica do país, ficando atrás apenas de Eduardo Saverin — aquele brasileiro que cofundou o Facebook e hoje vive em Singapura.

A Bloomberg a descreveu certa vez como a guardiã discreta de um império global. Raramente aparece. Não dá entrevistas. Seu nome só entra nas manchetes quando há briga familiar — e essa parte não faltou.

Alberto Safra, um dos filhos, deixou o conselho familiar do banco em 2019, fundou a ASA Investments — vista pelos demais como concorrência direta — e depois processou a própria mãe e os irmãos, alegando que sua participação no Safra National Bank de Nova York tinha sido diluída indevidamente. É o tipo de desavença que passa de geração em geração nas famílias muito ricas. Dinheiro demais costuma criar esse problema.

Mas Vicky segue. Discreta, firme, bilionária.

Nos primeiros anos, Cristina fazia de tudo. RH, atendimento ao cliente, reuniões com investidores. Com uma equipe de dez pessoas, eles construíram um banco sem agência, sem tarifa e sem burocracia — que nenhum banco tradicional acreditava que pudesse dar certo.

Deu certo.

Hoje, o Nubank tem mais de 114 milhões de clientes em toda a América Latina e vale cerca de US$ 50 bilhões na Bolsa de Nova York — a NYSE, a maior bolsa de valores do mundo. Cristina ficou na 5ª posição entre as mulheres mais ricas do país em 2025, com fortuna estimada em R$ 8,7 bilhões.

E ela é uma das únicas, nessa lista inteira, que construiu tudo isso do zero. Sem herança. Sem marido rico. Sem família com banco. Só uma ideia, muita teimosia, e a convicção de que o sistema bancário brasileiro estava errado.

Atualmente ocupa o cargo de Chief Growth Officer — diretora de crescimento — do Nubank, liderando a expansão internacional da empresa. Mudou-se para os Estados Unidos para tocar esse processo. É mãe. Fala publicamente sobre como é difícil conciliar tudo isso. Não faz questão de parecer perfeita.

Essa, aliás, é uma das coisas que diferencia Cristina das outras da lista. Ela fala. Aparece. Conta a história. Num clube onde a regra tácita é o silêncio, ela é barulho. E o barulho, aqui, funciona como inspiração.


Nº 3

Íris Abravanel e filhas — a família que chegou junto

Silvio Santos morreu em agosto de 2024. O Brasil parou. Chorou. Lembrou do camelô que virou dono de emissora, do apresentador que vendia sonhos aos domingos, do homem que transformou entretenimento em negócio bilionário durante décadas.

Mas o que poucos pensaram naquele momento foi: o que acontece com tudo aquilo agora?

A resposta apareceu em 2025, quando o ranking da Forbes registrou a estreia de Íris Abravanel e suas seis filhas. Juntas, elas entraram no ranking com patrimônio conjunto de R$ 6,4 bilhões, herdado de um império que inclui o SBT, a Jequiti Cosméticos, o hotel Jequitimar, a Tele Sena e outros negócios.

Íris nasceu em 1948, no Rio de Janeiro, é escritora, compositora e novelista. Ela chefia o núcleo de teledramaturgia do SBT desde meados de 2008 — responsável por adaptações como Chiquititas — e se casou com Silvio Santos em 1971. Não tinha papel direto na administração do grupo empresarial. Era a artista da família, a criadora de histórias.

Agora, ela e as filhas estão no comando de um dos maiores grupos de comunicação do país. A gestão é dividida: Daniela Beyruti é CEO do SBT, Patrícia é apresentadora e diretora, Rebeca também apresenta, Silvia cuida de projetos sociais, Renata atua na área administrativa e Cintia participa das decisões de forma mais discreta.

É um retrato curioso. Silvio Santos construiu esse império todo — e foram as mulheres da família que ficaram para administrá-lo.


O número que parece avanço mas também é crítica

Vamos ser honestos sobre o que esses números significam.

Em 2025, a Forbes contabiliza 60 mulheres entre os 300 bilionários brasileiros. Juntas, somam R$ 343,7 bilhões — e representam apenas 20% de um clube de 300 pessoas.

Há outro detalhe importante: entre as dez mulheres mais ricas do Brasil, apenas duas construíram suas fortunas sozinhas, sem herança. São Cristina Junqueira, do Nubank, e Lucia Maggi, da Amaggi — empresa agroindustrial do Mato Grosso. Todas as outras herdaram: de marido, de pai, de família.

Isso não é crítica a essas mulheres. Gerir bem um patrimônio construído por gerações também é uma forma de competência. Mas é um dado que merece atenção quando se fala em avanço feminino no mundo das grandes fortunas.

Segundo a Oxfam, organização britânica de combate à pobreza, as mulheres fazem mais de 75% de todo o trabalho de cuidado não remunerado do mundo — cuidar de filhos, de idosos, de casa. E 42% delas não conseguem emprego porque são responsáveis por essa carga em casa. Enquanto isso, as que chegam ao topo chegam, na maioria das vezes, pelo caminho da herança.

O Brasil tem 66 bilionários. A riqueza dos mais ricos cresceu quase 16% em 2025, enquanto o salário mínimo apenas repôs a inflação. O país permanece como o epicentro da concentração de renda na América Latina, e o sistema tributário ainda pune proporcionalmente mais quem ganha menos.

Ou seja: o fato de que agora há mais mulheres no topo da pirâmide é relevante. Mas a pirâmide em si ainda é o problema.


O que essa lista realmente diz

Há algo fascinante e, ao mesmo tempo, contraditório nessa história toda.

Por um lado, há Cristina Junqueira — que largou um emprego seguro, fundou um banco numa casinha alugada e provou que o sistema bancário brasileiro podia ser diferente. É inspirador de verdade.

Por outro, há Vicky Safra — cuja fortuna remonta a camelos sírios do século XIX e que ocupa o topo da lista por ter sobrevivido ao marido mais rico do Brasil.

Ambas são bilionárias. Ambas estão na Forbes. Os caminhos não poderiam ser mais diferentes.

E é exatamente essa diferença que define o atual momento do Brasil. O país está num ponto em que começa a produzir suas próprias milionárias do zero — mas ainda tem a maior parte de sua riqueza feminina concentrada nas mãos de quem teve a sorte de nascer ou casar certo.

Não é pouco. Mas também não é o suficiente para chamar de revolução.

Por enquanto, é uma mudança. E mudança, como diria qualquer bom economista, precisa de tempo para dizer se virou tendência.

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