GameStop Tentou Engolir o eBay — e Levou um Não

Sede do eBay em San Jose, Califórnia, fotografada em maio de 2018. Crédito: Coolcaesar via Wikimedia Commons. Licença Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0 International (CC BY-SA 4.0).

A empresa que virou piada em 2021 tentou comprar o eBay por R$ 312 bilhões — e o eBay disse não na cara dura.

16 de maio de 2026

A GameStop Estava Quase Morta. Depois Resolveu Comprar o eBay.

Existe uma empresa americana que já foi chamada de dinossauro, de morta-viva e de piada do mercado financeiro. Uma rede de lojas físicas que vende videogames — num mundo em que todo jogo é baixado pela internet, sem precisar sair de casa. Em 2021, Wall Street apostou que essa empresa ia falir. Um grupo de pequenos investidores decidiu provar o contrário, e o que aconteceu depois virou filme — literalmente.

Cinco anos depois, essa mesma empresa fez uma oferta de US$ 55,5 bilhões para comprar o eBay.

Parece mentira. Na prática, não.

O Que É a GameStop — e Por Que o Mundo Inteiro Ouviu Falar Dela em 2021

Para entender essa história, é preciso voltar um pouco. A GameStop é uma rede de lojas físicas fundada nos Estados Unidos em 1984, especializada na venda de videogames, consoles e acessórios. Durante décadas, foi o destino natural de quem queria comprar um jogo. Portanto, quando o mercado digital explodiu — com jogos sendo vendidos direto pela internet, sem disco físico, sem caixinha, sem loja —, a GameStop começou a sangrar.

Investidores profissionais, os chamados fundos de hedge — grandes empresas que apostam no mercado financeiro com capital milionário —, detectaram a fraqueza e passaram a fazer o que se chama de “venda a descoberto”: apostaram que as ações da GameStop iam cair, porque esperavam que a empresa quebrasse. Ou seja, estavam literalmente lucrando com o fracasso alheio.

Então apareceu a internet.

Em janeiro de 2021, um grupo de investidores amadores — muitos deles jovens organizados num fórum chamado Reddit, no canal r/WallStreetBets — decidiu comprar ações da GameStop em massa, de propósito, para forçar os grandes fundos a perder dinheiro. Funcionou além do esperado. As ações subiram mais de 2.500% em poucas semanas. Fundos gigantes perderam bilhões de dólares. O fenômeno ficou conhecido como “meme stock” — e a GameStop virou símbolo de uma revanche dos pequenos contra os poderosos de Wall Street. A história foi tão absurda que virou o filme “Dumb Money”, lançado em 2023.

Nesse mesmo período, entrou em cena o homem que mudou o destino da empresa.

Ryan Cohen: o Canadense Que Nunca Foi à Faculdade e Construiu Dois Impérios

Ryan Cohen nasceu no Canadá, em 1985, e nunca foi à faculdade. Sua maior referência foi o pai — um empresário disciplinado que corria seis quilômetros por dia, sem exceção, mesmo no frio canadense. Aos 15 anos, Cohen já ganhava dinheiro na internet fazendo indicações de e-commerces por comissão. Aos 25, fundou a Chewy — um e-commerce de produtos para pets.

O nome não diz muita coisa para o brasileiro, mas o tamanho da história diz tudo: em 2017, a PetSmart comprou a Chewy por US$ 3,35 bilhões — na época, a maior aquisição de e-commerce da história americana. Cohen tinha 31 anos. Antes disso, porém, ele bateu na porta de mais de 100 investidores buscando capital para a empresa — e levou 100 “nãos”. Nenhum deles acreditou no negócio. Afinal, quem iria comprar ração e brinquedo de cachorro pela internet?

Todo mundo, como se descobriu depois.

Com o dinheiro da venda, Cohen não se aposentou. Investiu pesado em Apple, acumulou posição em GameStop e entrou no conselho da empresa em janeiro de 2021. Tornou-se CEO em 2023 e passou a receber exatamente R$ 0 de salário — sem bônus, sem benefício, sem parachute dourado. Sua remuneração depende exclusivamente do desempenho das ações. Nesse sentido, é o tipo de executivo que ou vai a fundo ou vai junto com a empresa.

Sob seu comando, a GameStop saiu de um prejuízo de US$ 381 milhões em 2021 para um lucro de US$ 418 milhões em 2025. A empresa cortou US$ 800 milhões em despesas, fechou lojas deficitárias e acumulou aproximadamente US$ 9,4 bilhões em caixa. Portanto, quando Cohen disse que queria comprar o eBay, havia dinheiro de verdade na mesa.

A Oferta Que Parou Wall Street: US$ 55,5 Bilhões Para Comprar o eBay

No dia 3 de maio de 2026, um domingo, Cohen enviou uma carta ao conselho do eBay. A proposta era direta: a GameStop queria comprar 100% das ações do eBay por US$ 125 por ação — metade pago em dinheiro vivo, metade em ações da própria GameStop. O valor total chegava a US$ 55,5 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 312 bilhões.

Para entender a ousadia: a GameStop valia, na época, cerca de US$ 11,9 bilhões. Ou seja, uma empresa estava tentando comprar outra quase quatro vezes maior que ela própria. Em reais, é mais do que o PIB anual de vários estados brasileiros somados.

O prêmio oferecido era de 46% acima do preço de fechamento das ações do eBay no dia em que a GameStop começou a comprar, discretamente, uma participação de 5% na empresa. Cohen havia acumulado essa posição usando derivativos — instrumentos financeiros sofisticados que permitem ter exposição a uma ação sem comprá-la diretamente, o que dificulta que o mercado perceba o movimento antes da hora certa.

O Plano de Cohen: Cortar Gordura e Criar um Rival da Amazon

Na carta enviada ao eBay, Cohen apresentou sua lógica com precisão. O eBay gastou US$ 2,4 bilhões em marketing em 2025 — e ganhou apenas um milhão de compradores ativos no período, passando de 134 milhões para 135 milhões de usuários. Cohen argumentou que esse investimento era ineficiente, e que cortaria US$ 1,2 bilhão dessas despesas logo de cara.

Em contrapartida, usaria as 1.600 lojas físicas da GameStop nos Estados Unidos como pontos de autenticação, logística e “live commerce” para o eBay. O live commerce é um modelo de venda ao vivo por vídeo — o vendedor mostra o produto em tempo real, os compradores assistem e compram na hora. É algo que explodiu na China e começa a ganhar força nos Estados Unidos.

A visão de Cohen era clara: juntos, GameStop e eBay formariam um “concorrente de verdade para a Amazon”. Sobretudo porque o eBay tem uma marca com reconhecimento global e uma base enorme de compradores, enquanto a GameStop tem presença física nacional e uma legião de fãs apaixonados. Nesse sentido, a combinação fazia algum sentido estratégico — pelo menos no papel.

Cohen também deixou claro que continuaria sem salário à frente da empresa combinada. Sua remuneração seria apenas em ações — ou seja, só ganharia dinheiro se o negócio crescesse de verdade.

O eBay Respondeu. E Não Foi Com Gentileza.

As ações do eBay subiram mais de 9% logo após o anúncio da proposta. O mercado ficou animado — ou pelo menos curioso. Portanto, parecia haver chance de negociação.

O conselho do eBay, porém, não se deixou seduzir. No dia 12 de maio de 2026, menos de duas semanas depois da oferta, o presidente do conselho da empresa, Paul Pressler, respondeu com uma carta de rejeição. O tom não deixou espaço para interpretação: a proposta foi classificada como “nem crível, nem atraente”.

Os argumentos foram quatro. O eBay acredita que vai melhor sozinho. Há sérias dúvidas sobre se a GameStop conseguiria levantar o dinheiro necessário para fechar o negócio. Os riscos operacionais de unir duas empresas tão diferentes são grandes demais. E a forma como a GameStop é administrada gerava desconforto no conselho.

Em relação ao financiamento, o ponto era legítimo. Cohen apresentou uma carta do banco TD Securities com compromisso de até US$ 20 bilhões em crédito. A GameStop tinha US$ 9,4 bilhões em caixa. Mas o negócio custava US$ 55,5 bilhões — sobrava um buraco de vários bilhões sem explicação clara. Afinal, a agência de rating Moody’s — uma das mais respeitadas do mundo na avaliação de risco financeiro — já havia classificado a operação como “negativa para o crédito” do eBay. Em outras palavras: a compra deixaria o eBay mais endividado e mais arriscado.

Sobretudo, muitos analistas de Wall Street questionaram se havia lógica real em unir uma rede de lojas de videogame com um marketplace que vende de tênis usados a peças de carro raras. Cohen apareceu no canal americano CNBC para defender a proposta — e a entrevista foi descrita como “desajeitada e combativa”, com ele oferecendo poucos detalhes concretos sobre como a operação funcionaria na prática.

O detalhe mais revelador da história toda: quando o eBay rejeitou a oferta, suas ações estavam em torno de US$ 107 — muito abaixo dos US$ 125 oferecidos por Cohen. Isso significa que o próprio mercado não acreditava que o negócio fecharia. O mercado financeiro, com toda a sua frieza, estava dizendo em voz alta o que o eBay disse por escrito: essa história não vai terminar em casamento.

O Que Fica Depois do “Não”: Cohen Vai Desistir ou Escalar?

Quando um conselho rejeita uma proposta de aquisição, o comprador tem basicamente três caminhos. Pode desistir e ir embora. Pode aumentar o valor da oferta para torná-la mais atraente. Ou pode ir diretamente aos acionistas da empresa-alvo — pulando o conselho — e tentar convencê-los a votar a favor da venda. Essa última opção se chama “hostile takeover”, ou aquisição hostil, e é uma das manobras mais agressivas do mundo corporativo.

No momento em que este texto foi escrito, Cohen ainda não havia revelado qual caminho tomaria. Porém, seu histórico sugere que ele não é do tipo que bate em retirada facilmente. Afinal, foi rejeitado por mais de 100 investidores antes de construir a Chewy. Levou a empresa ao bilhão de dólares antes de qualquer um deles acreditar.

Por Que Essa História Importa Além do Drama Corporativo

O que torna essa história relevante para além do barulho de Wall Street é o que ela revela sobre a mudança de papel das empresas. A GameStop foi quase descartada como loja obsoleta condenada ao desaparecimento. Sob Cohen, virou uma empresa com quase US$ 9,5 bilhões em caixa e zero de dívida — uma máquina de capital esperando uma aquisição transformadora. Portanto, a tentativa de comprar o eBay não é loucura: é a execução de uma estratégia de transformação radical.

O eBay, por sua vez, tem sua própria história de resiliência. Fundado em 1995, foi um dos primeiros grandes marketplaces da internet. Perdeu espaço para Amazon, Alibaba, Shein e até para o Facebook Marketplace. Em contrapartida, em 2026 mostrou crescimento de 19% na receita e um aumento de 18% no volume total de transações. Ou seja, não é uma empresa moribunda esperando ser salva — é uma empresa que acredita estar no caminho certo.

Nesse sentido, a questão central não é quem tem razão. É saber se Cohen conseguirá convencer os acionistas do eBay de que a combinação das duas empresas vale mais do que cada uma separada. E essa resposta ainda está em aberto.

Valor da oferta
US$ 55,5 bi (≈ R$ 312 bi)
Preço por ação ofertado
US$ 125 (+46% prêmio)
Caixa da GameStop
US$ 9,4 bilhões
Decisão do eBay
Rejeitada — “nem crível”
O que essa história ensina sobre dinheiro e ousadia

A GameStop tentou comprar o eBay sendo quatro vezes menor. Levou um não. Mas o simples fato de que a oferta existiu — com documentos reais, compromisso de banco real e caixa real — já diz tudo sobre o que Ryan Cohen construiu. Uma empresa que o mercado queria enterrar virou compradora bilionária. Isso não é sorte. É o que acontece quando alguém tem um plano, executa com disciplina e acumula poder antes de precisar usá-lo. O eBay pode ter dito não agora. A história ainda não terminou.

💬 Você apostaria que a GameStop consegue fechar essa compra — ou Cohen finalmente esbarrou numa parede grande demais? Conta aqui embaixo!

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