BBAS3 Despenca: Lucro Cai 53% e Guidance Assusta

O Banco do Brasil abriu o pregão desta quinta-feira em queda de quase 5% — e a culpa tem nome: agronegócio, lucro despencando 53% e um guidance que, em três meses, virou ao contrário.

14 de maio de 2026

O Banco do Brasil foi o queridinho da bolsa por anos. Hoje de manhã, não.

Durante anos, BBAS3 foi aquela ação que os analistas recomendavam com os olhos fechados. Barata, lucrativa, pagadora de dividendos generosos e dona de uma carteira de crédito invejável — especialmente no agronegócio, o coração da economia brasileira. Era o banco dos fazendeiros, dos produtores rurais, do Brasil que planta e colhe. E isso, por décadas, foi uma vantagem competitiva enorme.

Na prática, essa mesma vantagem virou o maior problema da ação.

Na manhã desta quinta-feira (14 de maio), logo após a abertura do pregão, BBAS3 despencou 4,91% em questão de minutos, chegando à mínima de R$ 19,74 — e assumindo a liderança da ponta negativa do Ibovespa. O papel se tornou o mais negociado da bolsa, com R$ 284,6 milhões em negócios antes das 10h30. Sobretudo, o motivo dessa queda não veio do nada: veio de um balanço publicado na noite anterior que confirmou os piores temores do mercado — e ainda trouxe uma surpresa extra que ninguém queria.

Queda na abertura
-4,91%
Mínima do dia
R$ 19,74
Lucro 1T26
R$ 3,4 bilhões
Queda no lucro (anual)
-53,5%

O número que chocou: lucro de R$ 3,4 bilhões, queda de 53%

Para entender o tamanho do tombo, é preciso colocar o número em perspectiva. No primeiro trimestre de 2025, o Banco do Brasil havia lucrado R$ 7,6 bilhões — resultado robusto que sustentava a tese de que o banco era uma máquina de gerar dinheiro. Um ano depois, esse mesmo número encolheu para R$ 3,4 bilhões. Portanto, estamos falando de uma queda de 53,5% na comparação anual — e de 40,2% em relação ao trimestre imediatamente anterior.

Para quem não está acostumado com o mercado financeiro, uma comparação direta ajuda: é como se uma empresa que ganhava R$ 100 mil por mês passasse a ganhar R$ 47 mil — em apenas quatro trimestres. O dinheiro não desapareceu à toa. Ele foi consumido por provisões — o termo técnico para o dinheiro que o banco precisa reservar preventivamente para cobrir os calotes que já aconteceram ou estão prestes a acontecer.

Nesse sentido, o custo de crédito do Banco do Brasil no 1T26 foi de R$ 18,9 bilhões — alta de 85,8% em relação ao mesmo trimestre do ano passado. Ou seja, o banco quase dobrou o quanto precisou reservar para se proteger de clientes que não pagaram. E o principal responsável tem endereço certo: o campo brasileiro.

O agronegócio virou vilão — e ninguém esperava que fosse tão rápido

O Banco do Brasil é, historicamente, o maior financiador do agronegócio no Brasil. Essa posição privilegiada rendeu décadas de lucros expressivos — afinal, o agro responde por quase 30% do PIB e tem exportações recordes a cada ano. Plantar dinheiro no campo parecia, por muito tempo, um negócio sem perdedor.

O problema começou a aparecer a partir do segundo semestre de 2024, quando uma combinação fatal de fatores atingiu o produtor rural: clima adverso, custos de produção elevados, preços de commodities pressionados e juros altos que tornaram as dívidas impagáveis. O resultado foi uma explosão de recuperações judiciais no setor — que, segundo a Serasa Experian, registrou o maior número de empresas em processo de falência técnica em 2025 entre todos os setores da economia brasileira.

No primeiro trimestre de 2026, foram 162 novos processos de recuperação judicial só no agro. Em abril, já eram mais 61 — ritmo que, anualizado, retornaria a níveis comparáveis aos piores meses de 2025. A inadimplência da carteira agro atingiu 5,05% — alta de 1,42 ponto percentual em doze meses. Portanto, não há como suavizar: o campo, que sempre foi o trunfo do BB, virou sua maior dor de cabeça.

O ROE que envergonha — e o que significa para o investidor comum

Há um indicador que os analistas acompanham com obsessão ao avaliar bancos: o ROE, ou Retorno sobre o Patrimônio Líquido. Em linguagem simples, ele responde à seguinte pergunta: para cada R$ 100 que o banco tem de patrimônio, quanto ele consegue gerar de lucro? Quanto maior o número, mais eficiente e lucrativo é o banco.

No primeiro trimestre de 2025, o ROE do Banco do Brasil era de 16,7% — número competitivo, dentro do padrão dos grandes bancos privados. No quarto trimestre de 2025, havia caído para 12,4%. No primeiro trimestre de 2026, chegou a apenas 7,3% — queda de 9,4 pontos percentuais em um ano. Em contrapartida, o custo de capital do próprio banco — o mínimo que ele precisa render para justificar sua existência — está estimado entre 12% e 14%. Ou seja, o BB está rendendo menos do que o necessário para pagar seu próprio custo de existir. Isso, tecnicamente, significa destruição de valor para o acionista.

A pior notícia do dia não foi o lucro — foi o guidance. Há apenas três meses, no Dia do Investidor, o Banco do Brasil havia reafirmado sua projeção de lucro entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões para 2026. Ontem à noite, revisou esse número para a faixa de R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões. Na prática, o antigo piso virou o novo teto. O JPMorgan foi direto em relatório: “a revisão do guidance poucas semanas após o Dia do Investidor, onde as projeções foram reafirmadas, pode prejudicar a credibilidade da administração.” De 10 casas de análise consultadas pela LSEG, 6 recomendam manutenção, 2 recomendam venda e apenas 2 recomendam compra.

O lado bom — sim, existe um

Nem tudo foi pessimismo no balanço. Em meio ao resultado pressionado, o Banco do Brasil anunciou o pagamento de R$ 465,7 milhões em Juros sobre Capital Próprio — cerca de R$ 0,08157 por ação. Para ter direito ao provento, é necessário possuir as ações até o fechamento do pregão de 1º de junho de 2026.

Afinal, a margem financeira bruta cresceu 14,8% em relação ao mesmo período do ano passado, chegando a R$ 27,4 bilhões. A carteira de crédito de Pessoa Física cresceu 7,8% em doze meses, sustentada pelo crédito consignado — que avançou 7,2% no período. E o consignado privado saltou de R$ 1,93 bilhão para R$ 11,9 bilhões em apenas um ano — crescimento de mais de 500%. Nesse sentido, há partes do banco funcionando bem. O problema é que os desafios do agro ainda são grandes o suficiente para ofuscar esses pontos positivos.

O que esperar daqui para frente

A Genial Investimentos resumiu o sentimento do mercado com uma expressão precisa: “recuperação em W”. Isso significa que o banco deve passar por um ciclo de queda, leve recuperação, nova queda e só então recuperação consistente — sem um fundo claro e definitivo ainda à vista. A maioria dos analistas projeta que a normalização do agronegócio não deve ocorrer antes do segundo semestre de 2026 — e mesmo isso depende de fatores que o banco não controla, como clima, preços de commodities e taxa de juros.

Sobretudo, o preço-alvo médio dos analistas para BBAS3 segue em torno de R$ 26,71 — o que representaria valorização de aproximadamente 27% em relação à cotação atual. Ou seja, para quem acredita na recuperação do banco a longo prazo, o papel pode estar barato. Para quem precisa de visibilidade de curto prazo e dividendos previsíveis, o momento ainda pede cautela.

Comprar, segurar ou vender? O que dizem os analistas

A XP Investimentos manteve recomendação neutra para BBAS3, citando “baixo nível de visibilidade e assimetria de riscos negativa, com espaço para novas revisões para baixo”. A Genial aponta que, com o novo guidance indicando ROE próximo de 10% em 2026 — patamar abaixo do custo de capital do banco — as ações devem continuar negociando abaixo de 1 vez o valor patrimonial por mais tempo.

Em contrapartida, quem comprou BBAS3 pensando em dividendos de longo prazo encontra aqui um ponto de reflexão importante. O banco anunciou JCP mesmo com resultado fraco — sinal de que não abandonou a política de remuneração ao acionista. Portanto, a questão não é se o BB vai se recuperar, mas quando. E essa resposta, por enquanto, ainda está no campo.

O que a queda de BBAS3 ensina sobre risco e paciência

O Banco do Brasil não quebrou. Não está em crise existencial. Mas está passando por aquilo que o mercado chama de “ciclo de crédito adverso” — e quem não entendia o que isso significava, entendeu hoje de manhã, ao ver a ação cair quase 5% na abertura. O agronegócio, que por décadas foi o motor do BB, virou temporariamente seu freio. E o mercado puniu com rapidez aquilo que o banco levou trimestres para acumular. A lição não é sobre o Banco do Brasil especificamente. É sobre qualquer investimento: vantagem competitiva e risco caminham juntos — sempre. Quem colhe os dividendos nos anos bons precisa estar preparado para os trimestres em que o campo não coopera.

💬 Você tem BBAS3 na carteira? Vai segurar, comprar mais ou vender depois dessa queda? Conta nos comentários.

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