A caravana de Porsches que conquistou a Serra da Estrela

17 Caymans e Boxsters cruzaram a Serra da Estrela em Portugal — e cada um carregava um número com quase 70 anos de história nas pistas.

12 de maio de 2026 · Porsche, Executive Digest, PlanetCarsZ

Dezessete esportivos, duas mil curvas e um nome que venceu Le Mans

Há eventos que a câmera do celular não consegue traduzir — por mais que tente. No último fim de semana, um grupo chamado Grupo 718 reuniu 17 Porsches Cayman e Boxster nas estradas da Beira Baixa, em Portugal, para o passeio “Cântaros da Estrela”. O roteiro durou dois dias e passou por Covilhã, Manteigas, Guarda, Sabugal e Belmonte — municípios encravados na região da Serra da Estrela, onde as estradas sobem, descem, fecham e abrem sem parar.

Nenhuma rodovia reta. Nenhuma pressa. O tipo de trajeto que faz sentido apenas ao volante de um esportivo de motor central, com as mudanças na palma da mão e a traseira posicionada bem atrás dos ombros. Portanto, não foi por acaso que esse grupo escolheu exatamente esses carros para fazer esse roteiro.

O Grupo 718 não é uma empresa — é uma desculpa para sair do celular

Na Porsche, o Grupo 718 não tem sede, diretoria nem registro comercial. É, simplesmente, um conjunto de apaixonados pelos modelos Cayman e Boxster que se reúnem com um propósito declarado: encontrar pessoas de verdade, em estradas de verdade, numa época em que a maioria das interações acontece numa tela de quatro polegadas.

O nome do passeio deste ano — “Cântaros da Estrela” — referencia os Cântaros, as formações rochosas mais altas da Serra da Estrela e da própria Península Ibérica, com picos que ultrapassam os 1.990 metros de altitude. Ou seja, não foi escolhido por acaso: curvas fechadas em altitude elevada são exatamente o tipo de estrada que transforma um Cayman num instrumento preciso e revela tudo o que o projeto desses carros tem a oferecer.

Carros na caravana
17 Porsches
Duração do roteiro
2 dias
Altitude máxima
+1.990 metros
Modelos presentes
Cayman e Boxster

Por que esse número — o 718 — ainda carrega tanto peso

Aqui a história fica interessante para quem não é do meio automotivo. O número 718 não é uma sequência aleatória de marketing. Afinal, na Porsche, os números raramente são. O 718 foi um carro de competição produzido pela marca entre 1957 e 1962, evolução direta do lendário Porsche 550 Spyder — o “matador de gigantes” dos anos 1950, apelido dado por derrotar repetidamente adversários muito mais potentes em circuitos pelo mundo.

O 550 Spyder acumulou cerca de 95 vitórias absolutas em mais de 370 corridas ao longo de sua carreira. Seu sucessor direto, o 718 RSK, chegou ainda mais longe. Em 1959, pilotado por Edgar Barth e Wolfgang Seidel, venceu a Targa Florio na Sicília em classificação geral — liderando uma dobradinha tripla da Porsche na mesma prova. O mesmo modelo competiu nas 24 Horas de Le Mans, nas 12 Horas de Sebring e no Nürburgring, com motor central de apenas 1.500 cc. Sobretudo, vencia não pela força bruta, mas pelo equilíbrio, pela agilidade e pela distribuição de massas que os concorrentes não conseguiam imitar.

O número que virou filosofia de engenharia

Nesse sentido, quando a Porsche resgatou a designação 718 em 2016 para rebatizar os modelos Cayman e Boxster, a intenção era clara: conectar os esportivos modernos de motor central aos carros de corrida dos anos 1950 que venciam com inteligência, não com cilindradas. A configuração de motor central favorece uma distribuição de massas próxima de 50:50, uma dianteira comunicativa e uma traseira mais previsível no limite — exatamente o que o 718 RSK oferecia nas pistas da Sicília décadas atrás.

Em contrapartida, o 911 moderno cresceu em tamanho, ganhou tração integral e sistemas complexos de amortecimento ativo. Tornou-se extremamente rápido — e extremamente mediado pela tecnologia. O 718, para quem dirige os dois, representa outra conversa: mais crua, mais direta, mais honesta. Para os puristas que cruzaram a Serra da Estrela neste fim de semana, isso é exatamente o ponto.

Em outubro de 2025, a Porsche encerrou a produção do 718 Cayman e Boxster a combustão. O CEO Oliver Blume confirmou substitutos elétricos, mas sem data definida. O passeio “Cântaros da Estrela” aconteceu, portanto, com carros que podem ser a última geração de Caymans e Boxsters movidos a gasolina — o que dá ao encontro um peso que vai além do passeio em si.
Porsche 718 RSK original de 1958, motor flat-4 de 1.6 litros — o mesmo modelo que venceu a Targa Florio em 1959 e inspirou o nome dos Cayman e Boxster modernos. Foto: Brian Snelson / Flickr · CC BY 2.0

O que um passeio de fim de semana revela sobre quem compra esportivo

Há um estereótipo popular de que quem tem Porsche na garagem quer apenas exibir. O Grupo 718, com sua caravana pela Serra da Estrela, contradiz isso sem fazer discurso. Nenhuma faixa, nenhum patrocinador visível, nenhum influenciador contratado. Apenas 17 carros, estradas de montanha e dois dias longe da notificação que não para de chegar.

Em contrapartida, é preciso contextualizar: um Porsche 718 Cayman novo custava, antes do encerramento da produção, em torno de R$ 500 mil no Brasil — e as versões GT chegavam ao dobro disso ou mais. Portanto, não é um passeio democrático no sentido financeiro. Mas a ideia por trás dele — de que um carro esportivo só faz sentido quando é efetivamente dirigido em estradas que o desafiam — é uma que qualquer entusiasta entende, independentemente do que está na garagem.

O número 718 passou 70 anos ligando engenharia a resultado. Das pistas sicilianas da Targa Florio, onde um carro leve de motor central batia Ferrari e Maserati, até as curvas fechadas da Serra da Estrela em 2026, a lógica é a mesma: distribuição de peso correta vale mais que potência excessiva. O passeio “Cântaros da Estrela” não vai para o livro de recordes. Mas talvez seja exatamente esse o ponto — num mundo onde tudo precisa virar conteúdo, dirigir por montanhas sem nada a provar ainda é uma forma de resistência.

Você trocaria um fim de semana de tela pelo volante de um esportivo em estradas de montanha? 🏔️

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