17.237 sessões. 1.882 espectadores. Média de 0,1 pessoa por sala. E a Ancine disse que não pode fazer nada.
Uma sala de cinema vazia não é acidente — às vezes, é estratégia
Imagine entrar numa sala de cinema às 11h de uma terça-feira e encontrar, além de você, absolutamente ninguém. Nenhuma pipoca. Nenhum sussurro. Só a tela acesa, o ar-condicionado ligado e um filme infantil passando para as cadeiras. Agora imagine que essa mesma sala repetiu essa cena 114 vezes no mesmo dia. E que isso aconteceu por semanas seguidas, em dezenas de cidades brasileiras.
Isso não é ficção. É a estratégia que a Cinemark — maior rede de cinemas dos Estados Unidos, com forte presença no Brasil — adotou em 2026 para cumprir a Cota de Tela, uma lei federal que obriga as exibidoras a reservar parte da programação para filmes brasileiros.
O filme escolhido foi Zuzubalândia, uma animação infantil de 2024 dirigida por Mariana Caltabiano. Até aí, nada de errado. O problema está nos números: ao longo de 2026, a Cinemark realizou 17.237 sessões do filme — e registrou apenas 1.882 espectadores no total. Ou seja, uma média de 0,1 pessoa por sessão. Em termos práticos? A maioria absoluta das salas estava vazia. Na prática, era uma fraude à finalidade da lei.
O que é a Cota de Tela — e por que ela existe
Para entender o escândalo, é preciso entender o que está em jogo. A Cota de Tela é uma política pública criada para garantir que o cinema brasileiro tenha espaço real nas salas do país. Sem ela, a lógica do mercado faz o resto: filmes de Hollywood, com orçamentos de centenas de milhões de dólares, marketing global e franquias consolidadas, simplesmente dominam a programação. Sobra às produções nacionais o que Hollywood não quer — horários de segunda às 10h da manhã, salas menores, cartazes esquecidos.
A lei, sancionada em 2024 e plenamente em vigor em 2026, exige que complexos exibidores reservem um percentual mínimo de sessões para obras brasileiras ao longo do ano. No caso da Cinemark, a exigência corresponde a 16% das sessões realizadas. Portanto, quanto mais sessões a rede realiza no total, maior é o número de sessões nacionais que precisa programar.
Afinal, a lei define quantidade de sessões. Mas não define horário. Não define público mínimo. E não impede que o mesmo filme seja exibido centenas — ou milhares — de vezes seguidas. Ou seja, a regra foi cumprida na letra. E ignorada no espírito.

114 vezes por dia: como a Cinemark transformou uma lei em planilha
A operação foi cirúrgica. A partir do início de maio de 2026, a Cinemark passou a programar Zuzubalândia em sessões sucessivas, majoritariamente em horários como 11h e 14h45 — os chamados “horários mortos”, quando o público de cinema está no trabalho, na escola ou dormindo. Segundo funcionários da própria rede, a orientação interna era clara: usar o filme para acelerar o cumprimento da meta da Cota de Tela o mais rápido possível.
O objetivo era liberar o calendário. Com a cota preenchida, a rede teria mãos livres para o segundo semestre — quando chegam os grandes lançamentos de Hollywood que realmente enchem as salas e enchem o caixa. Em dezembro, por exemplo, novos filmes de franquias bilionárias prometem monopolizar as telas. Nesse sentido, a estratégia não era sobre Zuzubalândia. Era sobre o que viria depois de Zuzubalândia.
Em contrapartida, vale registrar que a Cinemark não agiu no escuro. A Ancine — Agência Nacional do Cinema, responsável por fiscalizar o setor — estava ciente da prática. E, ao ser questionada, deu uma resposta que resumiu o problema inteiro: a prática não descumpre a legislação atual. Ou seja, a fraude era legal.
O dado mais perturbador não é o número de sessões vazias. É o que ele revela sobre a relação entre grandes corporações e políticas públicas: a Cinemark não precisou subornar ninguém, não precisou falsificar documentos, não precisou agir na sombra. Encontrou uma lacuna na lei, construiu uma planilha em cima dela e executou o plano à luz do dia. A Ancine viu, reconheceu — e disse que não havia o que fazer.
O prejuízo real para o cinema brasileiro
Aqui está o ponto que o debate nas redes sociais frequentemente ignora: o cinema brasileiro não perdeu apenas visibilidade. Perdeu dinheiro.
Cada sessão vazia de Zuzubalândia é uma sessão que poderia ter sido ocupada por outro filme nacional — com diretor real, equipe real, história real, bilheteria real. A Cota de Tela existe justamente para criar oportunidade de mercado, não apenas presença estatística. Quando uma rede transforma essa oportunidade em fantasma — sessão que existe no papel mas não na prática —, está subtraindo receita de distribuidoras independentes, bloqueando o espaço de novos realizadores e destruindo o argumento mais básico do setor: o de que o cinema nacional pode ser economicamente viável se tiver espaço para ser visto.
Segundo a Ancine, em 2026 a participação do cinema brasileiro no público total recuou para 6,5% — contra 9,9% no ano anterior. A queda não pode ser atribuída exclusivamente à Cinemark, mas o comportamento da rede é sintomático de um problema maior: filmes nacionais continuam sendo empurrados para horários de menor audiência, mesmo quando a lei tenta garantir o contrário. Portanto, o prejuízo não é apenas cultural. É estrutural.
A reação da Ancine — e o que muda agora
Pressionada pela repercussão do caso, a Ancine publicou uma instrução normativa dias depois do escândalo. A nova regra cria bonificações para sessões de filmes brasileiros exibidas a partir das 17h — ou seja, em horários onde há público real. Sessões em horários nobres passam a contar com acréscimo de 0,10 na contabilização da cota. Filmes premiados em festivais reconhecidos ganham bônus ainda maior.
Sobretudo, a medida é um reconhecimento implícito do problema: a lei anterior permitia que a cota fosse cumprida às 11h da manhã, numa sala vazia, com um único filme repetido à exaustão. Afinal, mudar a régua depois que a jogada já foi feita não desfaz o estrago de 2026. Nesse sentido, o debate que fica é sobre fiscalização real, metas de diversidade de títulos e ocupação mínima por sessão.
O que França e Coreia do Sul ensinam ao Brasil
Países que levaram sua indústria audiovisual a sério não dependeram da boa vontade das grandes redes. A Coreia do Sul exige que cinemas exibam filmes nacionais em pelo menos 73 dias por ano — e o resultado é uma indústria que produziu Parasita, vencedor do Oscar. A França protege sua cinematografia há mais de 70 anos com cotas e taxas sobre ingressos revertidas diretamente para produção local.
O Brasil chegou tarde nessa conversa. E ainda tropeça nas brechas. A diferença entre uma política cultural que funciona e uma que vira planilha está nos detalhes da fiscalização — e na disposição de fechar as lacunas antes que alguém as explore. Portanto, o escândalo da Cinemark não é apenas sobre um filme passando para cadeiras vazias. É sobre o preço que o país paga quando trata cultura como burocracia.
A brecha que a lei deixou — e a conta que o cinema paga
A Cinemark não inventou nada novo. Fez o que grandes corporações fazem quando encontram uma lacuna: explorou até o limite. O problema não é a empresa. O problema é um sistema de fiscalização que define metas sem definir qualidade, que exige presença sem exigir resultado, e que pune o descumprimento mas não a distorção. Enquanto a lei tratar cultura como contabilidade, alguém vai sempre aparecer com uma calculadora melhor.
Você acha que a Cinemark agiu errado — ou simplesmente jogou dentro das regras? Conta nos comentários! 🎬
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