Ibovespa crava 6 semanas seguidas no vermelho — a pior sequência desde 2018 — enquanto o governo bloqueia mais R$ 22,1 bilhões do Orçamento.
Mais Uma Semana, Mais Uma Queda. Só Que Dessa Vez Entrou Para a História.
A semana de 19 a 23 de maio chegou com o Ibovespa tentando, mais uma vez, estancar o sangramento. Afinal, cinco semanas seguidas no vermelho já bastavam. O índice ainda acumulava 10% de alta no ano e havia quem apostasse que o pior havia passado.
Não havia passado.
O Ibovespa fechou a sexta-feira em queda de 0,81%, aos 176.209 pontos, cravando a sexta semana consecutiva no negativo — a maior sequência de perdas semanais desde 2018. Para encontrar uma série tão longa antes disso, é preciso voltar a 2004, quando o índice ficou sete semanas seguidas em queda. Portanto, o mercado brasileiro encerrou a semana carregando um recorde que ninguém queria.
Segunda-Feira (19/05): A Pesquisa Que Mexeu com o Mercado
A semana começou difícil. O Ibovespa caiu 1,52% na segunda-feira, fechando aos 174.278 pontos — o menor patamar desde janeiro. O volume financeiro foi de R$ 26,41 bilhões.
O viés negativo teve como pano de fundo o recuo nos preços de commodities como minério de ferro e petróleo, além do aumento nos rendimentos dos Treasuries americanos. Quando os juros dos EUA sobem, os investidores preferem a segurança dos títulos americanos ao risco de emergentes como o Brasil. Portanto, o real sofreu.
Mas o principal catalisador foi político. Uma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg revelou que o senador Flávio Bolsonaro caiu seis pontos percentuais desde abril, acumulando 41,8% das intenções de voto contra 48,9% de Lula em eventual segundo turno. O levantamento foi feito justamente após o escândalo envolvendo o Banco Master — e o mercado sentiu o impacto da incerteza eleitoral de forma imediata.
Terça-Feira (20/05): A Maior Alta em Semanas. E o Motivo Foi Americano.
A terça trouxe um alívio inesperado — e ele não veio de Brasília. O Ibovespa registrou sua maior alta desde o início de abril, impulsionado por um ambiente externo mais favorável e pela expectativa em torno dos resultados trimestrais da Nvidia.
Depois do fechamento dos mercados, a Nvidia — a empresa mais valiosa do mundo — divulgaria seus números trimestrais, gerando grande expectativa sobre a sustentabilidade do ciclo de expansão da inteligência artificial. Ou seja, uma fabricante americana de chips conseguiu fazer o que semanas de notícias positivas locais não fizeram: animar o mercado brasileiro.
Em contrapartida, a ata do Federal Reserve divulgada no mesmo dia foi mais dura. O documento mostrou que mais dirigentes do Fed passaram a considerar que uma alta de juros poderia ser apropriada se a inflação permanecesse acima da meta — o que limitou o entusiasmo da sessão.
Quarta-Feira (21/05): Acordo EUA-Irã, Dólar Abaixo de R$ 5 e a Bomba do Orçamento
A quarta-feira foi o dia mais movimentado da semana — pelos motivos certos e pelos errados.
O Ibovespa acompanhou o otimismo do exterior, com o Dow Jones voltando a fechar em recorde diante do relato de um possível acordo entre EUA e Irã, e o dólar recuou abaixo de R$ 5. Para um mercado que havia visto a moeda americana subir 3,48% na semana anterior, esse movimento foi recebido como respiro. O índice fechou em alta de 0,17%, aos 177.649 pontos.
Ainda na quarta, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que o governo federal promoveria um novo bloqueio no Orçamento de 2026 — exclusivamente pelo lado das despesas, que cresceram acima do esperado. O primeiro bloqueio do ano havia sido de R$ 1,6 bilhão. Nesse sentido, o anúncio dividiu o mercado: uns viram como responsabilidade fiscal; outros, como sinal de que as contas seguem pressionadas.
Quinta-Feira (22/05): Nvidia Decepcionou — Mas o Dólar Cedeu
A quinta foi de sinais mistos. As ações da Nvidia operaram em leve queda após a divulgação do balanço, com investidores repercutindo resultados considerados sólidos, mas já amplamente antecipados. Quando o mercado precifica o positivo antes do anúncio, até boas notícias viram pretexto para venda.
Mesmo assim, o dólar teve leve queda ante o real — na contramão da divisa americana no restante do planeta —, sustentado pelo noticiário sobre as negociações de paz no Oriente Médio. Ainda sem acordo formal, mas com relatos de progresso.
Sexta-Feira (23/05): Bloqueio de R$ 22,1 bi, Petróleo em Alta e a Sexta Queda
A sexta entregou o desfecho que o mercado temia. O Ibovespa fechou em queda de 0,81%, aos 176.209 pontos, após dois pregões de trégua — cravando a sexta semana consecutiva de perdas.
O governo publicou o Relatório Bimestral de Avaliação de Receitas e Despesas, confirmando o bloqueio de R$ 22,1 bilhões em gastos não obrigatórios. Com isso, o total congelado no ano chegou a R$ 23,7 bilhões. O motivo foi o crescimento das despesas obrigatórias — sobretudo o BPC, que pressionou R$ 14,1 bilhões acima do previsto, e os benefícios previdenciários, com R$ 11,5 bilhões a mais.
No exterior, os preços do petróleo fecharam em alta, refletindo o ceticismo dos investidores quanto ao avanço nas negociações de paz entre EUA e Irã. Washington e Teerã ainda discordavam sobre o urânio iraniano e os controles no Estreito de Ormuz. Afinal, promessa de paz e paz de fato são duas coisas completamente diferentes. O dólar fechou em alta de 0,57%, cotado a R$ 5,02 — mas acumulou queda de 0,74% na semana e, no ano, ainda recua 8,38% frente ao real.
O mercado brasileiro está preso em uma armadilha tripla: política eleitoral sem definição, fiscal com bloqueios crescentes e exterior que não dá trégua. O Ibovespa ainda sobe 10% no ano — mas cada semana no vermelho vai corroendo essa gordura. O dólar recuou na semana, o que é positivo para o real, mas a guerra no Oriente Médio ainda distorce commodities e inflação global.
Quem tiver paciência e horizonte de médio prazo encontra, nessa correção, preços mais atrativos do que em abril. Quem olha só para o gráfico do dia provavelmente vai entrar em pânico antes da hora certa.
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