O mesmo presidente que sancionou o imposto em 2024 o zerou na véspera de uma eleição — e abriu mão de R$ 1,78 bilhão já arrecadados só em 2026.
A Taxa que Era “Irracional” — Mas Estava Valendo Muito Bem
Em agosto de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a lei que criava um imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 — aquelas feitas em plataformas como Shein, Shopee e AliExpress, que o Brasil inteiro apelidou carinhosamente de “taxa das blusinhas”. Ao assinar, Lula não se conteve: chamou a própria decisão de “irracional”. Portanto, o presidente considerava irracional aquilo que estava prestes a virar lei com a sua assinatura. Na prática, assinou mesmo assim.
Ontem à noite, 12 de maio de 2026 — a menos de seis meses das eleições —, Lula voltou ao Palácio do Planalto, desta vez com Janja ao lado e sorrisos para as câmeras, para anunciar o fim da mesma taxa. A Medida Provisória foi publicada em edição extra do Diário Oficial. O imposto estava extinto. O povo estava salvo. Ou pelo menos era essa a narrativa.
Quando o Calendário Explica Melhor do que a Economia
Existe uma coincidência curiosa nessa história. A taxa das blusinhas arrecadou R$ 2,88 bilhões em 2024. Em 2025, primeiro ano completo de vigência, bateu R$ 5 bilhões — recorde histórico. Nos primeiros quatro meses de 2026, já havia somado R$ 1,78 bilhão, crescimento de 25% em relação ao mesmo período do ano anterior. O dinheiro entrava, a máquina funcionava. Afinal, qual seria o motivo econômico para zerar agora?
O governo respondeu com elegância técnica: o combate ao contrabando avançou, as plataformas se regularizaram, o Remessa Conforme cumpriu seu papel. Rogério Ceron, secretário-executivo do Ministério da Fazenda, afirmou que “após três anos conseguimos praticamente eliminar o contrabando e regularizar o setor — podemos dar um passo adiante”. Argumento legítimo. Só que o passo foi dado exatamente no ano em que Lula precisa de votos.
Nesse sentido, vale lembrar que integrantes da própria ala política do governo já avaliavam há meses que a taxa havia se tornado um dos principais pontos de desgaste da gestão junto à população. Ou seja, o diagnóstico político antecedeu — e possivelmente guiou — o diagnóstico econômico.
O Que o Governo Abre Mão — e Quem Paga a Conta
Os números incomodam quem gosta de fazer as contas. O Remessa Conforme arrecadou R$ 9,6 bilhões desde agosto de 2024. Somente em 2025 foram R$ 5 bilhões — dinheiro que ajudava a equipe econômica a tentar cumprir uma meta fiscal que exige superávit de R$ 34,3 bilhões neste ano. Antes da assinatura da MP, as projeções já apontavam déficit de cerca de R$ 60 bilhões nas contas públicas em 2026. Portanto, o governo abriu um buraco a mais no teto justamente quando o teto já estava rachado.
Sobretudo, a Confederação Nacional da Indústria calculou que a taxa havia preservado 135,8 mil empregos e mantido R$ 19,7 bilhões dentro da economia brasileira — dinheiro que, sem o imposto, iria direto para os cofres de gigantes chinesas. O Instituto para Desenvolvimento do Varejo foi além: no primeiro ano da cobrança, o varejo abriu 107 mil empregos. A Associação Brasileira do Varejo Têxtil alertou que estão em jogo os 18 milhões de empregos gerados pelo setor têxtil e de varejo no país. Ninguém do governo respondeu a esses números de forma direta.
A Indústria Que Ninguém Quer Defender em Ano Eleitoral
Em contrapartida, o presidente da CNI, Ricardo Alban, foi direto: “Permitir a entrada de importações de até US$ 50 sem tributação é o mesmo que financiar a indústria de países como a China”. A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção classificou a revogação como “extremamente equivocada”. A Associação Brasileira do Varejo Têxtil chamou de “grave retrocesso econômico”. Cada lado tem seu interesse, evidentemente. Mas é curioso notar que as empresas que comemoraram têm sede fora do Brasil, e as que choraram empregam brasileiros.
A Amobitec — que reúne Amazon, Alibaba, Shein e afins — comemorou, afirmando que a taxa era “extremamente regressiva” e reduzia o poder de compra das classes C, D e E. O argumento existe e tem peso. Afinal, comprar uma blusa de R$ 60 num aplicativo chinês e pagar mais R$ 12 de imposto é sentido no orçamento de quem ganha um salário mínimo. Nesse sentido, a crítica à taxa original tem alguma legitimidade. O problema, como sempre, é o contexto — e o timing.

O Povo Ganhou. Mas Qual Povo?
O governo vendeu a medida como vitória das classes C, D e E — aquelas que compram no AliExpress porque não conseguem comprar no shopping. O argumento tem alguma consistência: o imposto de 20% encarecia produtos de baixo valor para quem tem menos. Portanto, nesse ponto, a crítica à taxa original é legítima.
O problema é que a isenção federal não vem sozinha. Os dez estados que elevaram o ICMS para 20% sobre essas mesmas encomendas seguem cobrando normalmente. Ou seja, o consumidor que comemorou ontem ainda vai pagar imposto estadual de 17% a 20% dependendo de onde mora. A “vitória” é parcial — mas o palanque foi total. Lula, Janja, Alckmin e ministros da ala política estavam todos presentes na cerimônia. Para um ato administrativo que resolve metade do problema, a plateia era digna de inauguração de metrô.
O Mundo Foi na Direção Contrária — e o Brasil Recuou
Outro detalhe que o governo preferiu não comentar: o resto do mundo caminhou exatamente na direção oposta. Em maio de 2025, Donald Trump encerrou a isenção americana para pequenos pacotes oriundos da China — a chamada exceção de minimis. A União Europeia decidiu que, a partir de julho de 2026, também deixará de isentar remessas desse tipo. Brasil, Estados Unidos e Europa estavam convergindo para uma mesma conclusão: as plataformas asiáticas competem em condições desiguais e precisam ser taxadas. Nesse sentido, o Brasil foi o único dos três que deu meia-volta — e em ano eleitoral.
O que fica dessa história é simples: um presidente sancionou uma lei que ele mesmo chamou de irracional, deixou ela arrecadar quase R$ 10 bilhões em menos de dois anos, e a revogou a seis meses de uma eleição — com direito a cerimônia no Palácio, primeira-dama ao lado e transmissão ao vivo. A economia pode até ter mudado. O calendário eleitoral, com certeza, não.
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