
O governo federal criou um investimento que rende o dobro da poupança, começa com R$ 1 e pode ser resgatado às 3h da manhã de um domingo.
A poupança tem 160 anos. O governo acabou de criar a sua concorrente mais séria
Por décadas, a caderneta de poupança foi o investimento preferido dos brasileiros — não porque rendia bem, mas porque era simples, conhecida e estava em todo banco do país. Nesta segunda-feira (11 de maio de 2026), o governo federal tocou a campainha na Arena B3, em São Paulo, e apresentou algo que pode mudar esse cenário de vez.
O novo produto se chama Tesouro Reserva. Funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, aceita aplicações a partir de R$ 1 e paga 100% da taxa Selic — que hoje está em 14,5% ao ano. A poupança, por sua vez, rendeu 7,53% nos últimos 12 meses. Ou seja, estamos falando praticamente do dobro.
Na prática, a diferença já estava lá há anos. O que mudou agora é que o governo decidiu tirar a desculpa de quem ainda prefere a comodidade da caderneta.
O que é o Tesouro Reserva — e por que ele é diferente de tudo que veio antes
Antes de mais nada, vale entender o que é o Tesouro Direto: uma plataforma do governo federal que permite a qualquer pessoa comprar títulos públicos — ou seja, emprestar dinheiro ao Estado em troca de juros. Já existia o Tesouro Selic, que funciona de forma parecida. Portanto, o Tesouro Reserva não é exatamente uma invenção do zero.
A novidade está nos detalhes — e aqui os detalhes importam bastante. O título foi desenhado especificamente para quem quer guardar dinheiro de curto prazo, como a famosa reserva de emergência: aquela quantia que precisa estar disponível se o carro quebrar, o emprego acabar ou o dente doer no pior momento possível.
Nesse sentido, a grande jogada é a liquidez imediata a qualquer hora. Diferentemente de outros títulos do Tesouro Direto, que só permitem negociação em dias úteis entre 9h30 e 18h, o Tesouro Reserva pode ser resgatado em qualquer momento — inclusive num sábado à meia-noite — e o dinheiro cai na conta via Pix na hora.
Outro diferencial relevante: o investidor não verá o saldo oscilar negativamente no aplicativo. Enquanto outros papéis do Tesouro sofrem o efeito da chamada “marcação a mercado” — que faz o preço variar conforme as condições econômicas do dia —, o Tesouro Reserva usa a “marcação na curva”, acumulando os juros dia a dia sem sustos no extrato. Para quem nunca investiu e tem medo de ver o saldo cair, esse ponto é psicologicamente relevante.
R$ 1 mil na poupança ou no Tesouro Reserva — a conta que o governo fez
Segundo simulações do próprio Tesouro Nacional, com a Selic travada em 14,5% ao ano, uma aplicação de R$ 1 mil renderia R$ 1.051,23 em seis meses pelo Tesouro Reserva — ou seja, R$ 20,85 a mais do que a poupança no mesmo período. Em um ano, o saldo chegaria a R$ 1.101,82, superando a caderneta em R$ 40,14. Em dois anos, a diferença já sobe para quase R$ 80 — totalizando R$ 1.207,12.
Para quem guarda R$ 10 mil como reserva, os números crescem proporcionalmente. Portanto, a diferença não é absurda no curto prazo — mas, acumulada ao longo de anos, representa uma perda real de poder de compra para quem prefere ficar na poupança.
Sobretudo porque o Tesouro Reserva ainda tem outra vantagem que pouca gente nota: o rendimento é diário. Na poupança, o dinheiro só rende no “aniversário” mensal da aplicação — aquele dia específico em que você depositou. Se você tirar o dinheiro um dia antes desse aniversário, perde todo o rendimento do mês. No Tesouro Reserva, cada dia que passa já conta. Afinal, em se tratando de reserva de emergência — dinheiro que pode precisar sair em qualquer momento —, essa diferença é bastante concreta.
Limite de R$ 500 mil e acesso restrito por enquanto
O produto tem investimento máximo de R$ 500 mil por pessoa. Por ora, está disponível apenas para os cerca de 80 milhões de correntistas do Banco do Brasil — o maior banco público do país. O Tesouro Nacional já informou que está negociando a entrada de outros bancos e corretoras ao longo de 2026. Portanto, quem não tem conta no BB precisará aguardar ou abrir cadastro para investir agora.
Tem imposto — e isso muda a conta
Aqui vem a parte que ninguém gosta de ouvir. O Tesouro Reserva cobra Imposto de Renda sobre o lucro, seguindo a tabela regressiva da renda fixa: 22,5% para resgates em menos de seis meses; 20% entre seis meses e um ano; 17,5% entre um e dois anos; e 15% acima de dois anos. O desconto é automático no resgate — sem precisar fazer nada.
Quem sacar antes de 30 dias também paga IOF, que começa alto — 96% do ganho no primeiro dia — e vai caindo gradualmente até zerar no 30º dia. Em contrapartida, a poupança é isenta de Imposto de Renda, o que é uma vantagem real, especialmente para quem saca com frequência. Contudo, mesmo com a tributação, o Tesouro Reserva ainda supera a caderneta quando os juros estão elevados, como agora.
Há ainda a taxa de custódia cobrada pela B3 — a bolsa de valores que guarda os títulos —, de 0,20% ao ano. O alívio: para quem tiver até R$ 10 mil aplicados no Tesouro Reserva, essa taxa é isenta. Ou seja, o pequeno investidor não paga nada à B3. Acima disso, a taxa incide somente sobre o valor que exceder o limite. Para a maioria dos brasileiros que usa o produto como reserva de emergência, a isenção cobre a situação inteiramente.
E as “caixinhas” dos bancos digitais — perderam a guerra?
Não exatamente. Os cofrinhos e contas digitais remuneradas — popularizados por Nubank, Inter, PicPay e companhia — costumam oferecer 100% do CDI com liquidez diária, o que é bastante competitivo. A diferença essencial está no risco e na garantia. Esses produtos dependem da saúde financeira da instituição emissora e contam com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de até R$ 250 mil por CPF, por banco.
O Tesouro Reserva, por sua vez, tem garantia direta do governo federal — considerado o emissor de menor risco do país. Em contrapartida, isso não significa que os bancos digitais vão perder clientes do dia para a noite. A experiência de app, a facilidade e a ausência de IOF nos primeiros 30 dias ainda são vantagens práticas para quem movimenta o dinheiro com mais frequência.
Nesse sentido, o CDB também entra na disputa. Alguns bancos oferecem CDBs que pagam mais de 100% do CDI, superando o Tesouro Reserva em rentabilidade bruta — especialmente quando exigem prazos maiores de aplicação. Afinal, quem tem liberdade para travar o dinheiro por mais tempo pode conseguir retornos maiores no mercado privado. Portanto, o Tesouro Reserva não é necessariamente o melhor produto do mercado — mas é provavelmente o mais simples, seguro e acessível para quem ainda não investe ou está montando sua primeira reserva.
O país que guarda dinheiro na conta corrente
“É uma revolução no mercado financeiro 24 horas, sete dias por semana — nunca tivemos isso”, declarou Felipe Paiva, diretor de relacionamento com clientes e pessoas físicas da B3, no evento de lançamento. A frase soa como marketing, mas há substância atrás dela.
O Brasil tem uma relação curiosa com o dinheiro: é o país do Pix — tecnologia de pagamento que o mundo inteiro copiou —, mas também o país onde milhões de pessoas guardam a reserva de emergência na conta corrente, rendendo zero. O Tesouro Reserva funciona como uma ponte entre esses dois mundos: a simplicidade do Pix e a segurança do título público. Se o governo conseguir comunicar isso de forma eficiente para além do público que já investe, o impacto pode ser significativo.
Você ainda usa a poupança como reserva de emergência — ou já migrou para outra opção? Conta nos comentários! 💬
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