Todos amavam a Petz. Ela estava no prejuízo

Foto: Divulgação

A empresa que virou febre na pandemia acumulou anos de contas no vermelho antes de se unir à Cobasi e criar a maior rede pet da América Latina

9 de maio de 2026

A queridinha da bolsa que começou a arranhar

Em setembro de 2020, no auge do caos pandêmico, a Petz fez algo que poucas empresas tinham coragem de tentar: abriu seu capital na bolsa de valores. O IPO — como se chama essa estreia em bolsa — levantou cerca de R$ 3 bilhões e atraiu quase 39 mil investidores. Para quem não entende de finanças, a tradução é simples: a empresa convidou o público a se tornar sócio dela, vendendo pedaços da companhia na forma de ações. E o Brasil comprou a ideia.

Afinal, quem não queria uma fatia de um mercado em que os brasileiros adotavam cachorros e gatos em velocidade industrial durante o isolamento? Por um tempo, a aposta pareceu genial. A receita crescia mais de 50% ao ano, as lojas se multiplicavam pelo país e o mercado pet brasileiro despontava como o segundo maior do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. O preço da ação chegou a superar R$ 25. Na prática, porém, a festa tinha prazo de validade.

Quando abrir loja vira problema

O plano da Petz era expansão total. A empresa abria em média 30 a 50 lojas por ano — megalojas de até 2.000 metros quadrados, repletas de rações, aquários, veterinários e pet hotels. Para quem não tem familiaridade com o setor, imagine inaugurar um supermercado grande do zero: aluguel, reforma, estoque, equipe, marketing. Multiplique isso por 50 e você tem uma ideia do que estava acontecendo com o caixa da empresa.

Em 2021, a Petz também comprou a Zee.Dog — marca premium de coleiras, roupinhas e acessórios para pets — e a Cansei de Ser Gato, plataforma especializada em felinos. Eram apostas ousadas, mas custosas. A Zee.Dog, em particular, continuou dando prejuízo por trimestres seguidos depois da aquisição, pesando direto no resultado da companhia.

Portanto, o que parecia uma estratégia brilhante de dominar o mercado começou a cobrar um preço alto. Em 2022, o lucro real caiu 32,5% em relação ao ano anterior, chegando a R$ 50,6 milhões. A ação, que havia tocado R$ 25, despencou para R$ 13 — abaixo até do preço do IPO, de R$ 13,75. Em maio daquele ano, atingiu a mínima histórica. Nada animador para quem havia apostado fichas na empresa.

A ressaca do boom de pets

Há um detalhe que explica muito do que aconteceu com a Petz depois de 2021: o boom pandêmico de adoção de animais não foi eterno. Durante o isolamento, milhões de brasileiros adotaram cães e gatos para fazer companhia em casa. Isso injetou combustível artificial no mercado pet. Quando a pandemia arrefeceu, parte dessas pessoas voltou ao trabalho, saiu mais de casa — e o ritmo de adoções e gastos com pets desacelerou naturalmente.

A Petz havia construído uma estrutura pesada justamente no pico desse movimento. Afinal, quando uma empresa aluga 50 lojas grandes e contrata pessoal para todas elas, os custos fixos não desaparecem quando a demanda cai. Eles continuam chegando toda semana, independentemente de quantos cachorros estão sendo comprados.

O ano da anestesia progressiva

Nesse sentido, 2023 foi um ano de resultados que foram murchando trimestre a trimestre. O lucro do terceiro trimestre daquele ano caiu 87% em relação ao mesmo período de 2022 — de cerca de R$ 11,5 milhões para apenas R$ 1,5 milhão. Em outros termos: a empresa faturou quase R$ 800 milhões no trimestre e sobrou R$ 1,5 milhão. Uma margem líquida de 0,2%, o equivalente a ganhar R$ 1 de lucro para cada R$ 500 vendidos.

Sobretudo entre 2022 e 2024, a companhia enfrentou uma combinação difícil: crescimento de receita mais lento — em torno de 4% a 7% ao ano —, custos financeiros maiores por causa da alta dos juros no Brasil (que encarece qualquer dívida) e margens pressionadas pelo avanço do e-commerce. A concorrência com Mercado Livre, Magazine Luiza e especialistas online forçava a empresa a oferecer preços menores. Em contrapartida, as megalojas físicas continuavam custando caro para operar.

No 4º trimestre de 2024, a Petz registrou prejuízo de R$ 43,1 milhões — revertendo o lucro de R$ 5,1 milhões do mesmo período de 2023. Parte do impacto veio de um instrumento financeiro atrelado ao dólar, cujo valor oscila conforme o mercado — sem efeito real no caixa, segundo a CFO da empresa. Mas o número no papel era inegável: a Petz fechou 2024 com R$ 27 milhões no vermelho.

O preço de crescer rápido demais

Há uma expressão usada no mercado financeiro que cabe bem aqui: “queimar caixa”. Significa gastar mais do que se ganha na expectativa de que o crescimento futuro justifique o investimento presente. Muitas empresas de tecnologia fazem isso. O problema é que a Petz não era exatamente uma startup digital — era uma rede de lojas físicas enormes, com custos de aluguel, logística e pessoal que não somem com um clique.

O resultado dessas pressões simultâneas foi uma sequência de trimestres medíocres. O lucro encolhia, a margem encolhia e o mercado punia a ação. Quem comprou PETZ3 no pico de R$ 25 assistiu à ação chegar abaixo de R$ 4. Ou seja, uma destruição de mais de 80% do valor investido em pouco mais de dois anos.

A virada: quando o rival vira sócio

Foi nesse cenário de desgaste que, em agosto de 2024, surgiu o anúncio que o mercado não esperava: Petz e Cobasi — as duas maiores redes pet do país, rivais históricas — anunciaram uma fusão. Para quem acompanhava o setor, foi o equivalente a McDonald’s e Burger King decidirem sentar à mesma mesa.

A operação passou pelo Cade, o órgão que no Brasil avalia se uma fusão pode acontecer sem prejudicar a concorrência. Após meses de análise e pressão de rivais como a Petlove, a aprovação veio em dezembro de 2024 com uma condição: a nova empresa teria que vender 26 lojas no estado de São Paulo, onde a concentração era considerada alta. Afinal, só em São Paulo, a Petz tinha 125 lojas e a Cobasi, 149 — praticamente uma em cada esquina da capital.

O nascimento de uma gigante com dívidas a resolver

Em janeiro de 2026, a fusão foi concluída. Nasceu a União Pet Participações, que passou a negociar na bolsa com o ticker AUAU3. A Petz, como empresa independente, deixou de existir. Orçada em cerca de R$ 7 bilhões em faturamento combinado, a nova companhia reúne mais de 480 lojas em quase 20 estados, além de clínicas veterinárias, hospitais para animais e plataformas digitais — consolidando a maior estrutura do varejo pet do país.

O primeiro resultado depois da fusão trouxe sinais positivos. No primeiro trimestre de 2026, a União Pet registrou lucro de R$ 7,9 milhões — alta de 942% em relação ao mesmo período do ano anterior. A receita chegou a R$ 924 milhões, crescimento de 10,1%. Os números ainda não incluem os efeitos completos da integração com a Cobasi, que deve gerar entre R$ 200 milhões e R$ 260 milhões em ganhos operacionais adicionais por ano — porém com captura integral das sinergias prevista apenas para 2030.

O que fica dessa história

A Petz não quebrou por incompetência. Ela pagou o preço de uma expansão agressiva num momento em que o mercado desacelerava, os juros subiam e a concorrência digital crescia. Foram anos difíceis, com margens mínimas e prejuízos reais. A fusão com a Cobasi foi, ao mesmo tempo, uma admissão de que sozinha a conta não fechava — e uma aposta de que juntas as duas poderiam criar algo mais robusto. Se essa aposta vai se confirmar, o mercado ainda está avaliando.

💬 Você teria investido na Petz lá atrás, no IPO? Conta nos comentários o que você acha dessa fusão.

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