Samsung: a queda e ascensão do herdeiro bilionário Lee Jae-yong

Lee Jae-yong, presidente da Samsung Electronics, em 2016
Lee Jae-yong em dezembro de 2016. Foto: KBS / Creative Commons Attribution 3.0

Ele nasceu herdeiro do maior império tecnológico da Ásia, foi preso duas vezes, absolvido após uma década de batalhas judiciais e, em 2026, triplicou sua fortuna. Lee Jae-yong é o homem que quase perdeu tudo — e ainda assim comanda a empresa que representa 20% do PIB da Coreia do Sul.

06 de maio de 2026 | DNA do Bilhão

O Menino que Nasceu com um Chip de Ouro no Bolso

Em 23 de junho de 1968, nasceu em Seul, Coreia do Sul, um menino cujo destino já estava traçado antes mesmo de aprender a andar. Seu avô havia fundado a Samsung em 1938 como uma mercearia — sim, uma mercearia — que vendia macarrão e peixe seco numa Coreia ainda ocupada pelo Japão. Seu pai, Lee Kun-hee, transformou esse negócio modesto no maior conglomerado tecnológico da Ásia. E Lee Jae-yong? Bem, Lee Jae-yong nasceu para herdar tudo isso. O problema é que herdar um império de US$ 27 bilhões (cerca de R$ 149 bilhões) não é tão simples quanto parece — sobretudo quando envolve subornos, prisões, propofol e a presidente da Coreia do Sul no banco dos réus.

Jae-yong estudou história do Leste Asiático na Universidade Nacional de Seul, fez MBA na Universidade Keio, no Japão, e completou estudos de pós-graduação em Harvard. Em 1991, entrou para a Samsung. Passou pelos departamentos de planejamento estratégico e relações com clientes, acumulando títulos criados exclusivamente para ele — o que, convenhamos, é exatamente o tipo de coisa que acontece quando seu sobrenome é o mesmo da empresa. Em 2012, tornou-se vice-presidente. Em outubro de 2022, após anos de batalhas judiciais e um perdão presidencial, assumiu formalmente a cadeira de presidente executivo da Samsung Electronics. Portanto, o caminho foi longo. Muito mais longo do que qualquer herdeiro bilionário gostaria.

Fortuna em março de 2026
US$ 27 bilhões
Fortuna em 2025
US$ 7,8 bilhões
Samsung — % do PIB sul-coreano
~20%
Imposto de herança pago
R$ ~40 bilhões

O Escândalo que Derrubou uma Presidente — e Quase Destruiu o Herdeiro

Em 2016, a Coreia do Sul viveu um dos maiores escândalos políticos de sua história. A presidente Park Geun-hye foi acusada de permitir que sua amiga íntima, Choi Soon-sil — uma mulher sem cargo oficial no governo —, influenciasse decisões de Estado. Milhões de pessoas foram às ruas. Park foi destituída. E no meio desse terremoto institucional, surgiu o nome de Lee Jae-yong. Os promotores alegaram que a Samsung havia doado o equivalente a US$ 38 milhões para fundações controladas por Choi — incluindo uma empresa na Alemanha criada para financiar o treinamento equestre da filha da amiga da presidente. Em troca, segundo a acusação, o governo teria apoiado uma fusão entre duas subsidiárias da Samsung que fortalecia o controle de Jae-yong sobre o grupo, num momento delicado em que seu pai estava acamado após um ataque cardíaco.

Em fevereiro de 2017, Lee Jae-yong foi formalmente preso — interrogado por mais de 22 horas antes mesmo da prisão. Em agosto do mesmo ano, um painel de três juízes o considerou culpado de suborno, peculato e ocultação de produtos de crime, condenando-o a cinco anos de prisão. Em fevereiro de 2018, o tribunal de segunda instância reduziu a pena para dois anos e meio e a suspendeu, libertando-o após um ano de detenção. No entanto, o caso voltou ao Supremo Tribunal, que o reenviou ao tribunal inferior. Em janeiro de 2021, Lee foi novamente condenado a dois anos e meio — e voltou para a cadeia. Em agosto de 2022, o presidente Yoon Suk Yeol concedeu-lhe um perdão, citando a importância da Samsung para a economia do país. Ou seja: o homem foi preso, solto, preso de novo e perdoado por razões de Estado. Nada comum nem para os padrões dos bilionários.

Propofol, Fusões e Uma Década de Tribunais

O suborno à presidente não foi o único escândalo. Em outubro de 2021, Lee Jae-yong foi condenado por usar ilegalmente propofol — o mesmo sedativo que ficou famoso no caso Michael Jackson — em múltiplas ocasiões entre 2015 e 2020, numa clínica de cirurgia plástica em Seul. Além disso, enfrentou acusações de fraude contábil e manipulação de ações na fusão de 2015 entre a Samsung C&T e a Cheil Industries — operação que, segundo os promotores, foi arquitetada para garantir sua sucessão à frente do grupo com o menor custo acionário possível. Em julho de 2025, no entanto, o Supremo Tribunal da Coreia do Sul confirmou sua absolvição nesse segundo caso, encerrando uma batalha judicial que se arrastava havia uma década. Consequentemente, após dez anos de processos, audiências e penas de prisão, Lee Jae-yong chegou a 2026 juridicamente livre.

Diante de toda essa turbulência, Lee fez algo incomum para os padrões dos chaebols — aqueles grandes conglomerados familiares sul-coreanos onde o poder passa de pai para filho como um cetro sem questionamentos. Em declaração pública durante os processos judiciais, ele disse: “Quero fazer uma promessa agora — não haverá mais controvérsias relacionadas à sucessão.” Para quem conhece a história da Samsung, onde as disputas familiares atravessaram gerações inteiras, essa foi uma frase de peso. O tio de Jae-yong, Lee Maeng-hee, filho mais velho do fundador e preterido na primeira sucessão, chegou a processar a família em 2012 tentando recuperar o que considerava sua herança legítima — ação que poderia ter obrigado a devolução de ações avaliadas em centenas de milhões de dólares. Os tribunais rejeitaram a maior parte das reivindicações, mas o episódio mostrou o quanto esse império custa a manter unido.

Vale uma ressalva importante: a absolvição de 2025 não apagou o histórico. Lee Jae-yong foi efetivamente condenado e preso pelo caso de suborno ligado à presidente Park Geun-hye. O perdão presidencial de 2022 foi real, mas gerou críticas de parcela significativa da sociedade sul-coreana, que via na decisão mais uma demonstração do poder desproporcional dos chaebols sobre as instituições do país. A questão sobre até onde vai a influência da Samsung na política da Coreia do Sul permanece sem resposta definitiva.

A Herança Mais Cara da História — e o Picasso que Foi para o Museu

Em outubro de 2020, Lee Kun-hee morreu aos 78 anos, deixando uma fortuna estimada em 26 trilhões de wons — composta por ações das empresas do grupo, imóveis e uma das mais impressionantes coleções de arte privadas da Ásia, com obras de Picasso, Monet, Chagall, Gauguin, Miró e Salvador Dalí. A Coreia do Sul tem uma das alíquotas de imposto sobre herança mais elevadas do mundo, podendo chegar a 50%. Portanto, a família Lee enfrentou uma conta de 12 trilhões de wons — o equivalente a aproximadamente R$ 40 bilhões — paga em seis parcelas ao longo de cinco anos. A última foi quitada em maio de 2026, tornando-se o maior pagamento de imposto sobre herança já registrado na história da Coreia do Sul. O valor é tão expressivo que equivale a aproximadamente uma vez e meia toda a arrecadação nacional com esse tipo de imposto em 2024.

Para custear a dívida sem vender ações — o que poderia diluir o controle familiar sobre a Samsung —, a estratégia envolveu dividendos, empréstimos e, também, uma doação generosa: 23.000 obras da coleção de arte de Lee Kun-hee foram entregues ao Museu Nacional da Coreia e ao Museu Nacional de Arte Moderna e Contemporânea, incluindo 14 peças listadas como Tesouros Nacionais. Além disso, a família doou 1 trilhão de wons para organizações de saúde, metade destinada ao primeiro hospital de Seul especializado em doenças infecciosas. Ou seja, pagaram a conta mais alta da história do país e ainda saíram como benfeitores. Essa é uma habilidade que poucos bilionários dominam.

Herança de Lee Kun-hee
26 tri de wons
Imposto pago (6 parcelas)
12 tri de wons
Obras de arte doadas
23.000 peças
Alíquota de herança (Coreia do Sul)
até 50%

A Fortuna que Triplicou — e os Chips que Explicam Tudo

Em março de 2026, a Forbes listou Lee Jae-yong como o único sul-coreano entre as 100 pessoas mais ricas do mundo, com uma fortuna estimada em US$ 27 bilhões (cerca de R$ 149 bilhões). Para ter a dimensão do salto: em 2025, sua fortuna era de US$ 7,8 bilhões. Em menos de um ano, quase triplicou. O motivo é simples — e ao mesmo tempo a história mais importante da tecnologia global em 2025 e 2026: a demanda por chips de memória explodiu por conta da corrida pela inteligência artificial. A divisão de semicondutores da Samsung, que havia amargado um período difícil com queda nas margens e pressão competitiva da coreana SK Hynix e da americana Micron, se recuperou com força. E quando a Samsung sobe, Lee Jae-yong sobe junto — porque sua fortuna está diretamente atrelada ao valor das ações do grupo.

Em janeiro de 2026, Jae-yong acompanhou uma delegação de mais de 200 empresários sul-coreanos numa visita de Estado à China liderada pelo presidente Lee Jae-myung. Durante a viagem, foi flagrado numa loja em Pequim comprando 100 bonecos Labubu — aquelas figuras colecionáveis que viraram febre global. A notícia foi parar nos trending topics do Weibo, a rede social chinesa. É difícil imaginar Warren Buffett fazendo o mesmo. Mas Lee Jae-yong, ao contrário do estereótipo do executivo fechado, é conhecido por responder pessoalmente a e-mails e por uma postura leve com jornalistas — uma exceção entre os presidentes de grandes conglomerados asiáticos. Ainda assim, ao chegar ao aeroporto de Seul após mais de duas semanas nos Estados Unidos, em agosto de 2025, suas únicas palavras para a imprensa foram: “Estou pronto para 2026.” Poucos meses depois, os números deram razão a ele.

O que a história de Lee Jae-yong ensina sobre poder, dinheiro e resiliência

Lee Jae-yong não construiu a Samsung do zero. Mas mantê-la — atravessando prisões, escândalos, a morte do pai, uma conta de R$ 40 bilhões em impostos e uma década de tribunais — exigiu um tipo diferente de resiliência. A que não aparece em nenhuma lista de hábitos matinais de bilionários. A Samsung representa 20% do PIB da Coreia do Sul. Isso significa que, naquele país, Lee Jae-yong não é só um empresário: é uma força econômica com peso de nação. Quando ele foi preso, o mercado tremeu. Quando foi perdoado, o mercado respirou. E quando sua fortuna triplicou em 2026, o mundo percebeu que os chips — e não o petróleo, não o ouro — são o novo ativo estratégico do século. Lee Jae-yong entendeu isso antes de quase todo mundo. E pagou um preço muito alto para continuar no jogo.

Você acha que Lee Jae-yong merecia o perdão presidencial — ou a Coreia do Sul deveria ter tratado o caso como qualquer outro cidadão? Comenta abaixo! 👇

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