
Em 2003, Peter Jordan criou um site de cifras de violão no tempo livre depois do emprego. Hoje, seu império digital tem 20 milhões de inscritos, 4 bilhões de visualizações e faturamento estimado entre R$ 1 e R$ 2 milhões por mês. A história começou antes do YouTube existir.
Em algum momento de 2003, um programador de Petrópolis que passava horas na estrada para trabalhar decidiu criar um site de cifras de violão no tempo que sobrava depois do expediente. Não havia plano de negócios. Não havia investidor. Havia apenas um cara que gostava de música, sabia programar e achava que outras pessoas também gostariam de encontrar acordes de graça na internet — coisa que, naquela época, não era assim tão simples de achar.
Esse homem se chama Peter Maximilian Jordan. E o que ele construiu a partir daquele site — o Cifras.com.br — é, hoje, um dos maiores impérios digitais do Brasil. Petaxxon, a empresa que nasceu para dar conta de tudo isso, tem sede no Brasil e nos Estados Unidos, administra mais de uma dezena de plataformas e canais, e gera um faturamento estimado entre R$ 1 e R$ 2 milhões por mês. Só o AdSense — aquela receita de publicidade automática do Google que aparece nos vídeos do YouTube — rendia, segundo o próprio Peter, cerca de US$ 40 mil mensais em 2020 apenas no canal Ei Nerd. Isso é, na cotação atual, quase R$ 200 mil todo mês. De um único canal. Entre mais de dez.
O programador que não queria mais ficar longe de casa
Peter Jordan nasceu em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 3 de janeiro de 1977. Cresceu lendo quadrinhos — começou com Turma da Mônica e Disney, mas o vizinho que lhe deu uma Superaventuras Marvel mudou os planos para sempre. Aos 12 anos, ganhou seu primeiro computador. A partir daí, segundo ele, tornou-se “oficialmente nerd”. Formou-se em programação e foi trabalhar como desenvolvedor — profissão que, nas condições da época, exigia passar muito tempo viajando de cliente em cliente. Era bom na área. Mas odiava ficar longe de casa.
Por isso, no tempo livre depois do emprego, começou a criar projetos na internet. A lógica era simples: trabalhar de casa, perto da família, sem depender de cliente nenhum. Em 1999, ainda antes da bolha da internet estourar nos EUA (e nos sonhos de muita gente), ele já estava testando o que o ambiente digital podia fazer por alguém com habilidade em programação e paciência para construir audiência devagar. Dessa mentalidade, em 2001, nasceu a Petaxxon — a empresa que viria a ser o guarda-chuva de tudo. E, dois anos depois, em 2003, nasceu o Cifras.
Como o Cifras virou dinheiro — e como o dinheiro virou império
A história do Cifras é, em essência, a história de alguém que entendeu antes de todo mundo que audiência é ativo. Enquanto a lógica dominante da internet brasileira ainda era “cobro pelo acesso” ou “vendo assinatura”, Peter Jordan distribuía cifras de graça e construía uma base de usuários que voltava toda semana. Em 2010, o site ganhou o prêmio Peixe Grande — um dos mais tradicionais do setor digital brasileiro. Depois vieram três prêmios iBest. Em 2015, a página do Cifras no Facebook foi eleita a mais influente do mundo na plataforma, segundo o CrowdTangle. Não no Brasil. No mundo.
Nesse mesmo período, Peter expandiu o modelo. Criou o Letras.com.br — que se tornou o site de letras de música mais acessado do Brasil, com mais de 3 milhões de letras cadastradas e 1 milhão de acessos diários. Em seguida, o E-Chords, versão internacional do Cifras voltada para o mercado americano e europeu. Depois vieram o Los Acordes (espanhol), o GoTabs, o Guitar Camera. A Petaxxon deixou de ser uma empresa de um programador que trabalhava em casa e virou uma plataforma com portfólio internacional — tudo construído a partir de um site de cifras feito nas horas vagas depois do expediente.
O YouTube veio depois — mas veio grande
Em 2013, dez anos depois do Cifras, Peter Jordan pisou na frente das câmeras pela primeira vez. O canal se chamava, originalmente, Hey Nerd — depois renomeado para Ei Nerd. O conteúdo era o mesmo que ele já conhecia desde criança: filmes, quadrinhos, animes, séries, games. A diferença é que agora havia uma plataforma que pagava diretamente pelos acessos e uma audiência global treinada a consumir esse tipo de conteúdo no YouTube.
O canal cresceu devagar no começo — e depois não parou mais. Em 2020, o Ei Nerd cruzou a marca de 10 milhões de inscritos. No mesmo mês, foi hackeado por golpistas de criptomoedas, virou um canal de esquemas fraudulentos por algumas horas e recebeu um strike do YouTube. A situação foi resolvida — mas serviu como prova do tamanho que o canal tinha se tornado: vale a pena hackear algo que não tem valor. Hoje, o Ei Nerd tem mais de 14 milhões de inscritos e mais de 8 mil vídeos publicados, sendo incluído pelo YouTube na lista dos 50 canais mais influentes do Brasil desde 2018.
Os canais, os sites e as fontes de renda — 360 graus
Um dos detalhes que separa Peter Jordan da maioria dos criadores de conteúdo brasileiros é a diversificação. Não é um canal. Não é um site. É um ecossistema. Além do Ei Nerd, a Petaxxon opera o canal Acredite ou Não (curiosidades), o Peter Aqui (bastidores pessoais), o Nerds de Negócios (empreendedorismo e marketing digital), o Mala Feita (viagens) e a CyberClass — plataforma de educação digital com cursos sobre YouTube, Instagram e negócios online. Somando tudo, são mais de 20 milhões de inscritos em canais e mais de 80 milhões de seguidores em todas as plataformas.
A monetização, segundo o próprio Peter, funciona em 360 graus — expressão que ele usa para descrever o modelo: AdSense do YouTube, publicidade direta com marcas, produtos próprios (cursos), afiliados, eventos e palestrante. “Você consegue monetizar trezentos e sessenta graus. Você pode vender publicidade por você mesmo, você pode vender o seu próprio produto, você pode ser afiliado, você pode lançar produto. Você ganha autoridade que, com o tempo, vai te colocar em outro patamar”, disse em entrevista ao Jornal da Paraíba. Em 2026, essa autoridade chegou até a música: Peter lançou sua primeira canção como cantor e compositor — nova fonte de receita, mesmo padrão de diversificação.
Quanto vale — e o que os números dizem
Ninguém fora da Petaxxon sabe ao certo o faturamento total do grupo. Afinal, a empresa é privada e não tem obrigação de divulgar balanços. Portanto, o que existe são estimativas baseadas em dados públicos — e elas são consideráveis. O AdSense do Ei Nerd sozinho gerava US$ 40 mil mensais em 2020, segundo o próprio Peter. Com mais de uma dezena de canais e sites ativos desde então, e com o crescimento do YouTube no Brasil nos anos seguintes, esse número certamente não caiu. Além disso, plataformas como o Cifras e o Letras geram receita publicitária independente do YouTube — e o E-Chords opera no mercado internacional, onde os CPMs (o valor que o Google paga por mil visualizações de anúncio) são significativamente mais altos do que no Brasil.
A estimativa mais citada na internet é a de que o faturamento mensal da operação como um todo gira entre R$ 1 e R$ 2 milhões — e que o patrimônio total de Peter Jordan está entre R$ 50 e R$ 100 milhões, composto por participação na Petaxxon, imóveis e investimentos financeiros. São números de estimativa, não de auditoria. Mas são os únicos disponíveis — e, diante do que se sabe sobre o tamanho da operação, não parecem exagerados.
Por outro lado, o que é verificável são os prêmios: iBest por quatro anos consecutivos, Influency.me, Prêmio Influenciadores Digitais em Cultura e Entretenimento de 2018 a 2021, Creator do Ano no iBest em 2022. Além disso, o reconhecimento do próprio YouTube como um dos 50 canais mais influentes do Brasil. Ou seja, não se trata de um canal que cresceu por acidente — é um negócio construído com estratégia, desde antes de o YouTube existir.
A lição que o mercado ignora — e Peter aplicou desde o início
Há uma ironia discreta na trajetória de Peter Jordan que vale destacar. Em 2001, quando fundou a Petaxxon, ele era apenas um programador que queria trabalhar de casa para ficar perto da família. Não queria fama. Não queria aparecer. Queria autonomia. Durante mais de dez anos, ficou literalmente atrás do computador — construindo plataformas, acumulando audiência, criando valor sem aparecer em nenhuma foto. Só em 2013, quando o YouTube já estava maduro o suficiente para justificar o investimento de tempo, é que resolveu aparecer na frente das câmeras.
Esse timing não foi por acaso. Enquanto outros criadores apostavam tudo num único canal ou produto, Peter Jordan construiu uma base — os sites de música — que gerava renda estável e independente de tendências. Quando o YouTube decolou, ele tinha audiência, dinheiro e estrutura para entrar com força. Portanto, a história do Ei Nerd não começa em 2013. Começa em 2003, com um site de cifras feito depois do expediente, por um homem que simplesmente não queria mais passar tanto tempo na estrada.
Peter Jordan construiu um dos maiores impérios digitais do Brasil sem venture capital, sem sócio investidor e sem escritório no centro financeiro de São Paulo. Começou com um site de cifras no computador de casa, em Petrópolis, e foi adicionando peças ao tabuleiro com paciência de programador — uma plataforma de cada vez, um canal de cada vez, um mercado de cada vez. O resultado é uma operação que fatura entre R$ 1 e R$ 2 milhões por mês, com 20 milhões de inscritos e 4 bilhões de visualizações. A pergunta que fica é simples: quantas outras histórias como essa estão acontecendo agora mesmo, em quartos e apartamentos pelo Brasil, por pessoas que simplesmente decidiram que não queriam mais passar tanto tempo na estrada?
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Você conhecia a história completa de Peter Jordan — ou só conhecia o Ei Nerd? Deixa nos comentários qual parte da trajetória dele mais te surpreendeu. E se você também tem um negócio digital — mesmo que pequeno — conta como está indo. Às vezes a inspiração mais útil não vem dos bilionários de Forbes. Vem do programador de Petrópolis que criou um site de cifras depois do expediente.
