O avião fatal de BH: R$ 3,5 milhões e 47 anos de voo

Bombeiros trabalham no resgate após o monomotor Sertanejo colidir com prédio no bairro Silveira, BH — 4/5/2026. 📷 Corpo de Bombeiros de Minas Gerais

Um acidente no bairro Silveira, em Belo Horizonte, jogou holofotes sobre uma aeronave que voou por décadas no interior do Brasil — e que ainda pode ser comprada por até R$ 3,5 milhões.

4 de maio de 2026 | Fator Bilhão — Conexão Bilhão

Era meio-dia e vinte e cinco de uma segunda-feira comum em Belo Horizonte quando um avião monomotor caiu sobre o estacionamento de um prédio residencial no bairro Silveira, na região nordeste da cidade. Antes de colidir, o piloto havia avisado a torre de controle do Aeroporto da Pampulha que enfrentava dificuldades na decolagem. Uma pessoa morreu. Três ficaram em estado grave. E de repente o Brasil inteiro quis saber: que avião é esse?

Afinal, para quem não é do mundo da aviação — ou seja, para a maioria absoluta de nós —, um “Neiva EMB-721C Sertanejo” soa como coisa de almanaque. Mas não é. Trata-se de uma aeronave com história, com mercado ativo e com um preço que deixaria muita gente de queixo caído. Portanto, antes de seguir em frente: não, esse não é um avião qualquer jogado no fundo de um hangar esquecido. Ele ainda voa. Ainda é comprado e vendido. E ainda carrega passageiros por esse Brasil afora — sobretudo nos cantos onde estrada de asfalto é novidade.

Nasceu no Brasil, mas a ideia veio dos Estados Unidos

A história do Sertanejo começa com uma licença. Em meados dos anos 1970, a Embraer — que então engatinhava como fabricante nacional de aeronaves — firmou um acordo com a americana Piper Aircraft para produzir no Brasil uma versão do Cherokee Six, avião consagrado na aviação leve norte-americana. O resultado foi batizado de EMB-721 Sertanejo: um nome que já dizia tudo sobre o destino da aeronave.

Assim, de 1975 a 2000, a Embraer e sua subsidiária Neiva produziram 208 unidades do modelo. Não é um número impressionante comparado a uma linha de montagem de automóveis — mas na aviação leve brasileira, é uma marca significativa. Ao longo de um quarto de século, o Sertanejo foi parar em fazendas, em cidades do interior sem conexão aérea regular, em empresas de táxi aéreo e nas mãos de executivos que precisavam cruzar o país sem depender de escala em Guarulhos.

Produção total
208 unidades
Período de fabricação
1975 – 2000
Motor
Lycoming 300 HP
Velocidade máxima
290 km/h

O motor Lycoming de 300 cavalos de potência era o coração da aeronave — um seis cilindros a pistão, movido a Avgas (gasolina de aviação), que empurrava o avião a até 290 km/h. Para um monomotor da época, não era pouca coisa. Além disso, a cabine era generosa: comportava até sete pessoas, incluindo o piloto, com isolamento acústico e ventilação controlada — diferenciais que justificavam o apelido de “executivo do interior”. Com os assentos removidos, por sua vez, o espaço interno comportava até 700 kg de carga, o que tornava o Sertanejo igualmente útil para transportar equipamentos, medicamentos e mantimentos em regiões isoladas.

Neiva EMB-721C Sertanejo

Quanto custa um Sertanejo hoje — e o que isso diz sobre o mercado

Aqui a história fica interessante. O avião envolvido no acidente de BH foi fabricado em 1979 — ou seja, tem 47 anos. No entanto, isso não o torna barato. Nos classificados especializados de aviação, unidades do EMB-721C anunciadas no Brasil aparecem com preços que variam de R$ 950 mil a R$ 3,5 milhões, a depender do estado de conservação, das horas de voo acumuladas e dos equipamentos de navegação instalados a bordo.

Para contextualizar: uma unidade de 1976 com aproximadamente 4.800 horas totais de célula foi anunciada recentemente por R$ 1,2 milhão. Outro exemplar de 1980, em condições superiores — motor revisado, avionics modernos da Garmin —, chegou ao mercado por valores na faixa de R$ 1,6 milhão a R$ 3,5 milhões. Em outras palavras, um avião de meio século ainda vale mais do que um apartamento em muitas capitais brasileiras. Isso não é nostalgia. É oferta e demanda.

Faixa de preço (mercado)
R$ 950 mil a R$ 3,5 mi
Capacidade de carga
700 kg
Passageiros + piloto
Até 7 pessoas

Por que ainda vale tanto? Porque o Brasil é continental, porque as alternativas na mesma faixa de preço para aviação leve são poucas — e porque o Sertanejo tem uma reputação que resiste ao tempo: pousa em pista de grama, decola em espaços curtos e é relativamente simples de manter. No interior do Pará, do Mato Grosso e do Amazonas, onde o Sertanejo ganhou parte de sua fama, esse conjunto de qualidades vale ouro — às vezes literalmente.

A aeronave envolvida no acidente desta segunda-feira em Belo Horizonte, de acordo com o Registro Aeronáutico Brasileiro, estava proibida de operar como Táxi Aéreo — o que levanta questões regulatórias que as autoridades ainda investigam.

O avião que o Brasil esqueceu — mas nunca parou de usar

Há uma ironia simpática no destino do Sertanejo. Enquanto a Embraer tornava-se mundialmente famosa pelos jatos regionais da família ERJ e depois pelos E-Jets que cruzam os aeroportos do mundo, o seu avião popular — aquele nascido de uma licença americana, batizado com nome de paisagem rural, feito para o interior — simplesmente continuou existindo. Discretamente. Longe dos holofotes da imprensa financeira.

Dessa forma, enquanto o mundo discutia o Embraer 175 e os contratos com companhias europeias, o Sertanejo pousava em aeródromos de chão batido no Nordeste e no Centro-Oeste, transportando fazendeiros, médicos, missionários e, eventualmente, políticos que precisavam chegar a municípios que nenhuma companhia aérea servia. Era, em suma, a aviação invisível do Brasil — aquela que não aparece nos relatórios de passageiros do setor, mas que mantém regiões inteiras conectadas ao resto do país.

Consequentemente, mesmo com a produção encerrada em 2000, as 208 unidades fabricadas continuam circulando — algumas mais conservadas, outras carregando décadas de serviço nos registros de manutenção. O mercado de segunda mão permanece ativo, e há empresas especializadas que fazem upgrade de avionics (os sistemas eletrônicos de navegação) nessas aeronaves antigas, instalando GPS Garmin, indicadores digitais e outros equipamentos modernos em fuselagens que já atravessaram o século XX.

O acidente e o que ele revela sobre a aviação leve brasileira

O acidente desta segunda-feira em Belo Horizonte, por mais dramático que seja, não é um evento isolado na história da aviação leve no Brasil. Afinal, aeronaves pequenas, muitas com décadas de uso, operam diariamente em condições que variam enormemente — de aeroportos modernos e bem equipados a pistas improvisadas no meio do cerrado. A ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) regula esse setor, mas a fiscalização de uma frota tão dispersa geograficamente é, por natureza, um desafio permanente.

No caso específico do PT-EYT — prefixo do Sertanejo de 1979 que caiu no Silveira —, os registros apontavam que a aeronave estava em situação regular junto à ANAC, mas proibida de operar como táxi aéreo. O piloto, ao perceber a falha durante a decolagem no Aeroporto da Pampulha, ainda tentou comunicar o problema à torre de controle. Diante disso, a investigação em curso deverá apurar as causas técnicas do acidente — e, sobretudo, em que condições a aeronave operava naquela manhã.

Por outro lado, o episódio ilumina um debate que a aviação brasileira carrega há anos: o que fazer com uma frota de aeronaves leves envelhecidas que, ao mesmo tempo, são essenciais para a conectividade de regiões remotas e acessíveis financeiramente apenas por causa de sua idade? Substituí-las seria necessário — mas por quê, e com o quê, e com que recursos? Nesse sentido, o Sertanejo que caiu em BH hoje é, também, um símbolo de um problema estrutural que vai muito além de um único acidente.

Um avião que virou parte do Brasil sem que o Brasil percebesse

O Sertanejo não é um avião glamouroso. Não tem a elegância de um jato executivo nem a capacidade de uma aeronave comercial. Inclusive, jamais apareceu em campanha publicitária, nunca foi símbolo de status nas salas de embarque do Congonhas. Ainda assim, é provavelmente um dos aviões que mais tocou a vida cotidiana de municípios distantes dos grandes centros — levando médico quando a estrada estava intransitável, trazendo peça de reposição quando a colheita estava em risco, conectando famílias separadas por distâncias que o ônibus levaria dois dias para cobrir.

São 208 unidades fabricadas ao longo de 25 anos. Um número modesto para a indústria aeronáutica global — mas significativo o suficiente para deixar marcas concretas no mapa aéreo informal do Brasil. Dessa maneira, o acidente de hoje em Belo Horizonte, além de uma tragédia real com vítimas reais, é também um daqueles momentos em que algo que existia em silêncio aparece subitamente iluminado. E aí as perguntas surgem. O que é esse avião? De onde veio? Quanto vale? Por que ainda voa?

Agora você sabe.

O ponto que fica: O Sertanejo EMB-721C não é uma relíquia — é um espelho. Reflete o Brasil que a aviação comercial não alcança, o mercado que persiste na informalidade do interior, e a dificuldade crônica de renovar uma frota envelhecida sem deixar regiões inteiras desconectadas. O acidente de hoje em BH é uma tragédia. Mas também é um lembrete de que há um país voando em aviões dos anos 1970 — e que ninguém, até hoje, resolveu o que fazer com isso.

💬 E você — sabia que esse avião ainda voava no Brasil? Deixe seu comentário abaixo.

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ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil)

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